Quando viajo a trabalho, ando sempre de taxi. Bem, posso afirmar que tenho vivido boa parte da minha vida dentro de um, nos últimos anos. Descobri que taxistas são contadores de histórias e seus passageiros, terapeutas, com quem eles desabafam os problemas e se aconselham.

Em certas cidades, tenho um taxista exclusivo que fica à minha disposição a semana inteira. A consulta começa do aeroporto para o hotel, com uma recapitulação dos antigos acontecimentos (que já foram submetidos à minha “psicanálise”), ultimada por um “pois bem!” que introduz uma “fileira” de novos fatos detalhados um a um, no caminho entre uma e outra reunião, cujo endereço eles já sabem de cor. Já peguei cada “causo” que, sinceramente, não resisto em “declamar” pra família nos cafés-da-manhã, imitando os sotaques, trejeitos, e os vícios de linguagem mais engraçados dessa diversidade que é o Brasil.

Alguns taxistas se tornaram amigos. Como o seu Sousa de Recife. O número um, o meu preferido. Percebo sua satisfação no saudoso “minha patroa!” carregado de alegria, a cada chegada minha. Seu Sousa é mais que um amigo, eu tenho um irmão Pernambucano. Conheço sua vida todinha, floreada pelos álbuns de fotografia da família que ele leva no “porta luvas” só pra me mostrar. A formatura do filho Tiago, o menino de ouro formado em biomedicina. A festa de aniversário temática dos anos 60, nos cinqüenta anos da Dona Joana, sua “mulé” (como ele diz). A esposa, de quem ele fala cheio orgulho. "- Mulé letrada, visse?" - A falecida sogra ainda tem o quarto intacto, na casa dele.

– Ôche, dona Cristina! Minha mulé conserva tudim do mesmo jeito, intendesse? E num é que o cheiro dela tá impregnado no quarto até hoje, visse?

O seu Sousa tem sempre uma conversa pra jogar fora, ou um “babado forte” pra contar!

- Pois é, minha patroa... eu tenho andado assim, meio pensativo, visse?! É que minha mulé é querida di-mais! O telefone lá de casa só toca pra ela, num sabe? Num tem uma veizinha que seja pra mim, intendesse? Tá certo que ela é uma mulé muito boa, num tem maldade nin-uma, visse!? Pense num coração bom! Olhe, as amigas dela paparicam ela, e é muito! Meniiino! Aí, eu tava pensando: e, pois não é, que eu não tenho amigo nin-um! A senhora acredita? Isso é normal, é?

– Seu Sousa, e eu não sou sua amiga, não, heim?

- Vixe! É mesmo, né?

É mesmo, mesmo! O seu Sousa é do tipo que ainda liga depois que eu chego de viagem só pra se certificar se a viagem foi boa, e exclamar um “Graças a Deus e até breve”. Isso não é amizade verdadeira, não?
...

Eu ia pra uma reunião no SBT em Osasco/SP, quando peguei o taxi do Seu Antonio pela primeira vez, na Alameda Jaú com Augusta. Muito simpático e cortez, cumprimentou-me pelo retrovisor com os seus olhinhos miúdos através dos óculos:

- Pôsh não! Desejas irr prra onde, senhora?

Logo reconheci o sotaque português. Tinha uns cabelinhos de neve e usava terno cinza e cachecol. Percebi que já tinha idade para estar aposentado. Oitenta e dois anos! Revelou-me nos primeiros minutos de conversa.

- Cristina? Tens o nome de minha neta! Vejas que feliz coincidência!

Aos poucos fui encantando-me com sua figura graciosa e original. Ali começou mais uma terapia. Contou-me sua vida (a Marginal estava em obra, não faltou tempo, nem congestionamento).

- Pôsh então, dona Cristina! Cheguei em SP ainda meninote. Aqui, conheci o amor da minha vida... a minha Conceição. Tivemos duas filhas espetaculares (“debulhou” a vida das filhas). A minha Conceição tem Alzheimer, e tem mania por sapatos. Ela me pede para comprar um par a cada semana, porque ela esquece que os tem. Eu digo: - Mas, e aqueles que tu nem usaste ainda, meu bem? – Quais Antônio? Tu sonhaste? Eu estou descalsada! Estais a me negar um par de sapatos? - E eu não resisto, dona Cristina. Porque se nego alguma coisa pra minha Conceição, fico com tanto remorso! Nossa senhora!

No final da semana, levou-me do hotel ao aeroporto de Congonhas (mais congestionamento, um convite à nova terapia). No caminho, mostrou-me a fotografia da sua Conceição.

- Vejas com é linda, a minha Conceição!

Vi aquela senhorinha franzina, agarrada à cintura do seu Antônio mais moço.

- Como é linda a sua esposa, Seu Antônio! Muito linda! Uma diva!

- Nesta “chapa”, meu bem, ela tinha acabado de se recuperar do lúpus! Sofreu muito com essa doença, tadinha! Eu quase fico viúvo! E o piorr é que ela também tem diabetes, e é doida por docinho de abóbora! Ash vezes eu compro, escondido da nossa filha! Sim, porrque moramos com nossa filha, Sônia! E não é que a minha Sônia encontrou os docinhos escondidos no guarda-roupa, dias desses!? Ah, foi terível, dona Cristina! Chamou-me de irés-ponsável. Ela não compreende, percerbes? Como vou conseguir dizer não à minha Conceição? Ela aprecia demais, aqueles docinhos! Sabes d’uma cousa, Dona Cristina! Eu e minha Conceição nos amamos b’stante graças ao bom Deus! Àsh vezes, tenho pena de vir trabalhar, porque todas as manhãs ela dish: - Meu Antônio, eu te amo tanto, meu amor. Tu ficas comigo só hoje? Aí eu não resisto. Fico mash um pouquinho abraçadinho com ela na cama!

E, suspendendo os óculos, levou o lenço aos olhos, e continuou:

- Olhe, Dona Cristina (disse olhando-me pelo retrovisor), eu peço tanto a Deus pra não levar a minha Conceição, porque a pobrezinha é tão debilitada... Parece um passarinho! Mas, Deus tem feito tantos milagres! E a cada páscoa ou cada natal que passamos juntos, eu compro Vinho do Porto que ela adora de paixão, sem a nossa Sonia saber, é claro! - por causa da diabetes. E nós brindamos escondidinhos no quarto, mais uma data juntos! E ela diz toda alegrinha: oh, meu Antônio, que seria de mim se não fosse tu?”

Já estávamos chegando ao aeroporto e, a essa altura, a minha echarpe já estava ensopada de lágrimas. Quando desci do carro e o seu Antonio ficou de pé, vi o quanto ele era um vovozinho fofo, desses que a gente tem vontade de abraçar. Tão velhinho, que fiquei com pena dele pegar a minha mala de chumbo. Mas, ele insistiu, disse que ainda tinha força nos braços! Deu-me um abraço e falou:

- Dona Cristina, a senhora agora tem um amigo em SP. E é para o que derr e vierr! E eu desejo que a senhora seja muito feliz, má muito feliz com o seu esposo. E que o amor de vocês seja tão lindo e verdadeiro como o meu e da minha Conceição!

Sai arrastando a minha mala aos prantos, acabada, e certamente chamei a atenção na fila do check-in, contando a história pra minha filha pelo celular (porque, essa, eu precisava compartilhar ao calor da emoção). A Manuela choramingou do outro lado da linha... “- Ohw, meu Deus, o bichim” – Depois, eu ri de mim sozinha no avião, e dessa minha vida. Passava um tempo, e eu ria de novo. Ri várias vezes. Terei chamado a atenção?
...

Em Salvador, não tive essa sorte toda, não. Antes, pegava o taxi do seu Edgar. Mas, um dia, “na terapia”, ele me contou com a maior naturalidade que participava dessas brigas de aves silvestres, e que a polícia ambiental havia apreendido uns canários dele. Engoli o ódio, fiquei tão decepcionada com o malvado! Depois dessa conversa, ele nunca mais ouviu falar de mim. Então, passei a andar com outro taxista, o Ivan. Por mera coincidência baiana (e que me perdoem os amigos de lá), quase sempre que retorno da reunião, me deparo com a cena cômica, se não fosse constrangedora: o banco do carro declinado e ele cochilando com os pés trepados na direção. Outra vez, ao ligar pra reclamar o seu atraso, pasmei do outro lado da linha: “-Tô chegando, nêga!” Nega? Não é intimidade demais? Que baiano “entrão”! Fiquei tão passada que nem tive ação de responder.
...

Em Porto Alegre, tem um taxista que é colecionador de carro velho. Ele compra as latas-velhas caindo aos pedaços. “– Bah! Eu desmonto tudo, arrumo, boto uma água-de-cheiro e vendo, tchê! Ajuda a comprar a bóia e a pagar o colégio dos guris! Que tal?” - Numa corrida, me deu uma aula completa de como limpar as velas do motor.

Já no Rio de Janeiro, gosto de pegar o taxi do seu Osnir. Um japonês cuja filha toca violino. Ele gosta de músicas clássicas como eu, e até fez questão de me dar o seu cd que eu estava ouvindo no taxi! Em Belo Horizonte, eu tenho o seu Eduardo. Sabe aquele mineiro do sotaque bem “amineirado” mesmo? Que fala “esse trem”, “uai”, “bucadim”... Ohw terra do povo pra eu gostar! O filho dele estuda música também (como a filha do “japa” carioca). Só que ao invés do violino, ele toca flauta. O seu Eduardo adora “rasgar uma seda” para o filho, que estuda na Universidade Federal de BH. E, entre os melhores, é integrante da orquestra da Instituição de Ensino. Mas, não gosta muito dos comentários da família.

- Ói, Dona Cristina, eu num güento eles dizê que musca é coisa de viado, sô! Fale deu! Mar num fale do meu mulequim, não! O minino é macho, e é isforçado! Deusde o ano passado que eu tô pelejando pra pagá o diacho dessa flauta! Pense num trem caro! Já tocô em Beraba, Berlândia, Jizdifora...

A primeira vez que vi o seu Eduardo foi numa “corrida” da TV Alterosa para o Aeroporto de Confins. Eu estava atrasada para o vôo, mas ele me convenceu a passar no mercado pra comprar um queijo mineiro.

- Prestenção, dona Cristina! A sin-ora num pode chegar em casa sem um queijo minêro. O marido vai perguntá “quêde o quêjo?”. É quinem eu ir à Furtaleza e num Tumá um bãe de má. É mió num arriscá! E ainda pruveita e compra um bucadim de lingüiça, sô!

- Homem, dê aí marcha à ré e me leve logo nesse mercado! Mas tem que ser avexado!


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