Ouvir sua voz gritar o meu nome no diminutivo me dava taquicardia. Na terceira chamada, com o coração aos galopes, eu ainda aguardava o consentimento (a contragosto) dos meus avós. Eu aparecia na porta cheia de laços no cabelo, enchendo o seu sorriso de adoração. Da calçada, ele arremessava o embrulho de papel de bodega que atravessava o jardim rodopiando, quase a despetalar os cachos de hortênsias da vovó. Ao tocar o chão da varanda, pipocava um punhado de balas em todas as direções, e eu arrastava meus joelhos pelo piso encerado catando uma a uma para a saia do vestido.

Sentia vontade de descer os degraus correndo, enfiar meus pesinhos nas grades do portão, e me pendurar no pescoço do meu pai. Mas sentia vergonha de demonstrar-lhe afeto sob a vigília de meus avós que, entre cochichos, se acotovelavam atrás das venezianas. Restringia-me a um meio sorriso de lábios cerrados, com uma das mãos a prender as balas no vestido, e a outra, num aceno acanhado de despedida. Ele me lançava um olhar saudoso e eu escapulia para dentro de casa com a sensação de que havia feito algo proibido.

Essa cena repetiu-se por semanas, meses, talvez. O tempo de uma criança é uma fantasia que o próprio tempo encarrega-se de tornar enigmático. Aos oito anos, eu era a mais velha da prole de quatro filhas e assistia ao processo delicado de uma separação litigiosa, da qual eu tinha mais entendimento e menos impassibilidade que minhas irmãs mais novas. Meu pai era alcoólatra, numa época em que o alcoolismo estava longe de ser visto e tratado como “doença”.

O álcool furtou-lhe a dignidade, mas, não antes de lhe tirar a mulher, as filhas e o emprego. Durante algum tempo, perdido nos desvarios da ebriedade, vagueou pelas ruas do antigo bairro, choramingando a dor-de-cotovelo e a saudade das filhas. Quando não mais lhe restavam esperanças de reaver o lar, regressou à terra natal, de onde saíra há quase duas décadas, e para onde jamais cogitou voltar. Ao entrar no ônibus, rumo à fazenda Egito, na pequena cidade de Porteiras*, carregando uma mala tão mais leve que o seu coração, deixava para trás os sonhos de juventude e tudo o que ainda lhe dava algum sentido à vida. Aos trinta e três anos, a sentença: estava condenado à solidão pelos próximos, quase, quarenta anos.

Meus avós paternos já haviam partido. Ao menos, encontrou viva, Pureza, a preta velha e humilde cozinheira que o viu crescer. Pureza tinha ouvidos generosos, atentos às suas lamúrias, e sabedoria para aplicar-lhe conselhos valiosos de paciência e resignação, até o dia em que dormiu e não mais acordou. Restaram os irmãos de meu pai que moravam na fazenda e redondeza. Estes, porém, tinham mulher e filhos, além dos próprios fardos e preocupações. Isolado, meu pai ocupou-se com o nada. Preencheu seus dias com o ócio e a mente com as lembranças do passado. Por sorte, um dia largou a bebida. Mas, resistindo ao vício que o fazia esquecer a realidade, a sorrateira depressão o abraçou.

Quando eu já era uma mocinha, sete anos após o último arremesso de balas por sobre a mureta da casa da minha avó, o carteiro nos trouxe notícias suas. Nossos nomes separados por vírgulas, na ordem da mais velha à caçula, faziam a introdução. A carta expressava seu amor e saudade, e relatava o ultimato dos médicos para a possibilidade de cura de sua depressão: o reencontro com as filhas.

Um mês depois, aproximadamente, viajamos para a fazenda. Eu estava com quinze anos e, antes de minhas irmãs, o reconheci à distância pela silhueta de seu corpo sob o céu estrelado daquela noite. Foi um reencontro emocionante. Após meia hora de prosa, ele abriu a carteira e mostrou a nossa fotografia, tão amarelada quanto o meu sorriso de lábios apertados, pela falta de um dente de leite. Espelhando na outra aba, a foto de nossa mãe com sua expressão meiga, ao lado do pequeno calendário do Padre Cícero, o “Padim Ciço”, de quem é devoto.

Passamos dias felizes, revendo a família paterna, tomando leite mugido e chupando laranjas tiradas do pé. Mas, no dia da despedida, papai chorou todo o trajeto até a rodoviária. Espremidas na janela do ônibus, acenamos até perdê-lo de vista. Foi um triste adeus. Nos anos seguintes, fomos ao seu encontro nas férias escolares.

Depois de adultas, nossas idas à fazenda passaram a ser menos frequentes. Encontrávamos, com o passar dos anos, um homem mais velho que a sua idade cronológica, como se o tempo lhe pesasse em dobro. A cada partida, a tristeza foi dando lugar à resignação. Não é difícil acostumar-se com a delonga do próximo encontro quando se passa a vida esperando.

Envolvidas com nossas próprias vidas e os afazeres profissionais e domésticos, cometemos a falta de deixar passar quatro anos. Assim, num estalar de dedos. Quatro anos sem nenhuma visita. Próximo à Páscoa deste ano (2011), eu, minhas irmãs e minha mãe tomávamos um café numa tarde de sábado, e fazíamos uma reflexão a respeito. Conjeturávamos a possibilidade de trazê-lo para passar uns dias conosco em Fortaleza, se ele aceitasse. Tão acostumado com o seu habitat, não seria improvável recusar o passeio à Capital. Mas, na certeza de que ele, no mínimo, iria ficar feliz em nos ver, planejamos a viagem. A essa altura ele devia pensar que nós o havíamos esquecido.

Unidos no propósito, no dia marcado, seguimos na companhia dos maridos e de nossa mãe que disponibilizou a própria casa para hospedá-lo, na hipótese de ele vir conosco. Na sexta-feira da paixão já acordamos na pousada, em Brejo Santo, e pegamos o rumo da fazenda, a alguns quilômetros dali. Com dificuldade, transpomos as crateras que as águas pluviais causaram ao solo, no último inverno, e atingimos o cume da estradinha de barro, avistando o antigo casarão lá na baixada. Ao barulho dos motores dos carros, os moradores do povoado corriam para as portas de suas modestas casas, curiosos. Nos arredores, o casebre de taipa, a antiga morada de tia Pureza (como eu costumava chamá-la), estava em ruínas.

Encontramos nosso pai abatido, sentadinho no alpendre. Ao nos ver, descrente, ensaiou um sorriso confuso. Estaríamos ali para mais um breve consolo, ínfimo, para uma vida inteira de solidão? – li em seus pensamentos. Convidados à ceia de páscoa, chocou-nos o fato de meu pai não poder comer à mesa, na companhia de todos. Nem mesmo naquele dia especial? Alguém disse que ele sujava a toalha, apontando para o seu lugar de fazer as refeições. Peguei o meu prato e fui fazer-lhe companhia na velha mesa fora da casa. Meu pai comia sozinho todos os dias. E, excluso, ele não tinha nenhuma motivação afetiva, nada que lhe estimulasse à busca de um sentido maior à vida. Estava entregue a própria sorte.

Quando cada dia na vida de um homem torna-se um fardo pesado, a morte deve ser sua única esperança. Bastou-nos algumas horas para perceber o estado de quase abandono que se encontrava o nosso pai. Minha sobrinha de onze anos abraçou-se à mãe e chorou, ao adentrar no cômodo onde o avô passava as noites e a maior parte do dia. Uma masmorra. E, no instante decisivo, à pergunta cortante sobre o que ele achava de passar uns dias conosco, em Fortaleza, ele ergueu um olhar suplicante seguido de um “quero”, sem hesitação. Enfim, ele queria ir conosco. Certamente, o surpreendemos. E fomos surpreendidas.

Segurei meu pai pelos ombros, olhando-o nos olhos, e lhe afirmei que voltaríamos para apanhá-lo na manhã seguinte. No intuito de não deixar a mínima dúvida, antes de entrar no carro, reiterei a promessa. Minhas palavras o fizeram esboçar leve sorriso. Saímos emocionadas e fomos comer uma pizza na praça de Brejo Santo. Não conseguíamos parar de falar sobre isso. Ali, tomamos uma decisão. Agora, nosso objetivo era levá-lo definitivamente para o nosso cuidado e convívio.

O dia amanheceu, no sertão do Cariri, ensolarado. Naquela bela manhã, ao chegarmos à fazenda, ele já estava arrumadinho com os seus trapinhos de roupa e meia dúzia de mudas na mala. Despediu-se de todos, como se fosse apenas para o seu aposento nos fundos do casarão. A algumas horas de estrada, contei-lhe que ele não estava indo passar apenas alguns dias conosco. Entusiástica, aplicando-lhe uma injeção de ânimo, na veia, disse-lhe que era para sempre. Ele repetiu quase soletrando: “para sempre...”. Perguntei em seguida se ele iria sentir saudades da fazenda. Ele tirou o boné, passou a mão pela cabeça e, colocando o chapéu, disse com os olhos fechados, duas palavras: “um alívio”.

Depois de um dia inteiro de viagem, chegamos à Fortaleza quando a cidade preparava-se pra dormir. As filhas gêmeas o esperavam em festa com uma recepção de boas-vindas emocionante. E, para encerrar a noite, uma cama fofinha, com fronhas e lençol limpinho. Um contraste com o quarto da fazenda. No início, enfrentamos muitas dificuldades de adaptação. Acostumado à vida no campo, meu pai desaprendeu costumes básicos da vida civilizada. Mas, a sua vontade de ficar, e a nossa paciência e perseverança o fizeram aprender mais rápido do que acreditávamos ser possível. 

Hoje, vive em companhia da mulher que sempre amou por toda a vida. E, embora, minha mãe o tenha acolhido como um irmão, chama-o de “meu marido”, só pra lhe provocar um sorriso. Contratamos uma auxiliar de enfermagem que zela por sua boa alimentação e higiene pessoal. Aos sábados, como já era costume, nossa família se reúne. Agora, o novo membro é cercado de mimos. Ainda é estranho dizer “papai, papai!”. Papai era uma palavra que eu não costumava pronunciar com tanta frequência.   

Esta narrativa é exemplo de que nunca devemos desistir. Dias melhores sempre virão, mesmo que nos pareça impossível. O destino cravou na vida do meu pai, uma lacuna de trinta e sete anos. Um tempo infindável de páginas em branco, sem família, sem amor, sem história. Selamos um final feliz, graças a Deus e, especialmente, ao apoio incondicional da dona Lêda. Essa mulher de alma grande que me presenteou a vida e com quem tenho aprendido grandes lições. Ouvi de minha mãe: “ele me deu quatro filhas maravilhosas, e eu o privei do convívio e do carinho dessas filhas. O mínimo que posso fazer é dividir com ele os tesouros que ele me deu”.

*Porteiras, fica no interior do Ceará, microrregião do Cariri.

Para conhecer um pouco mais desta história, leia a crônica: “Dona Lêda e Seus Dois Maridos” - http://crisgrangeiro.blogspot.com/2009/03/dona-leda-e-seus-dois-maridos-d-ona.html



Links para esta postagem

Por mais que alguns acontecimentos nos deem uma impressão contrária, o mundo avança. Tudo o que existe está em contínua evolução. E, à medida que a humanidade evolui, as Empresas (uma vez que são conduzidas por seres humanos) progridem e renovam seus valores e o perfil de seus colaboradores. O conceito de “progresso social” existe desde as primeiras teorias do século XIX e já pontuava as filosofias da história do iluminismo que defendia a idéia de que “os seres humanos estão em condição de tornar este mundo, um mundo melhor”.

Nesta proposta de evolução se insere o ambiente corporativo, onde passamos uma parcela expressiva de nossas vidas. Há mais abertura e proximidade nos diferentes graus de hierarquia. Os processos estão menos burocráticos, as relações, mais sinceras e pouco formais, porque a figura do chefe está fora de uso, e dá cada vez mais lugar ao líder, bem melhor sucedido no desafio de influenciar pessoas a trabalharem motivadas.

Quando uma Empresa ou Departamento consegue formar a sua equipe nivelada pelos quesitos “comprometimento e maturidade profissional”, a confiança, a transparência e o respeito mútuo, são a base de suas relações. O uso da pressão, e a cobrança por relatórios exaustivos que têm por finalidade a comprovação do “dever profissional”, tornam-se desnecessários. Cada indivíduo tem consciência do seu papel e tem liberdade para exercê-lo com maior autonomia, partindo da premissa de que os resultados buscados têm objetivos comuns. Se o diálogo é constante e tudo é compartilhado de forma efetiva e honesta, as pessoas não precisam provar a sua confiabilidade a toda hora. Confiança é essencial. Sem esse elemento básico, as possibilidades são estéreis. É o mesmo princípio das relações de amor e amizade. La même chose!

Não há como ir contra a lei do Progresso. Quem busca ser uma pessoa melhor, terá uma vida melhor, que inclui um trabalho mais prazeroso e estimulante, onde a sinergia corporativa seja compartilhada por todos. Até parece utopia. Mas, o mundo caminha nesta direção. Alguns a passos lentos, outros ficarão inertes, certamente. Cada grupo afim no seu “quadrado”, como diz a música. Joio com joio, trigo com trigo.

Foto divulgação.


Links para esta postagem
Antigamente, quando falávamos em futuro, pensávamos na geração dos nossos filhos e netos. Hoje, com a aceleração dos processos de mudança, o futuro é um “pestanejar”. Os termos “avanço”, “velocidade” parecem incompatíveis ao que de fato significa o movimento de transformação do mundo. É como se futuro e progresso competissem, e o progresso chegasse à frente.
Tudo o que parece novo torna-se obsoleto, antes mesmo de ser inteiramente conhecido. A tecnologia é o que mais impressiona e, com ela, o que move a engrenagem de todas as coisas: a Comunicação. Nesse território, ao que tudo sinaliza, não serão os mais fortes a sobreviver. Mas, os mais inovadores, ágeis e adaptáveis.
Muitas fontes de informação sobre esse tema afirmam que o mobile, a banda larga, e o “tempo real” são a forma como pensaremos a comunicação amanhã (leia-se: “já”). Os telefones móveis com acesso à internet, que substituem o computador, estarão cada vez mais acessíveis. As próprias Empresas vão subsidiar, pois terão interesse em falar com as pessoas “on line”, estreitar relacionamentos.  As Redes Sociais e outras novidades vão se desenvolver. E a interatividade será um canal em contínua expansão.
A TV vai crescer, pois vai convergir para a internet. Aliás, a tendência é que todos os meios convirjam para algo que mais se pareça com TV. O break comercial deve deixar de existir, porque as pessoas terão o controle, e não mais as Empresas, que durante décadas estiveram no poder.  Elas verão somente o que lhes interessa de fato, inclusive a publicidade. E esta, terá sua funcionalidade a partir de ações criativas que ofereçam atração e entretenimento.
Os jornais, no formato impresso, devem ser reduzidos até desaparecer. Vejamos o exemplo do tradicional JB que saiu de circulação. O influente New York Times também anunciou o breve fim de sua versão impressa. E, contribuem para isso, o custo elevado de impressão e distribuição, a notícia “fria” e a curta vida útil. O Jornal deve buscar a sua “evolução” na internet. As revistas impressas podem resistir um pouco mais porque seu conteúdo é menos “perecível”.
As Empresas que vivem da comunicação não devem se acomodar. Ou correm o sério risco de serem engolidas pelas que já realizam um movimento de adequação. Nenhum sistema é imbatível. Vejamos o que aconteceu com a indústria fonográfica! Perceber as implicações desse desenvolvimento tecnológico exponencial, em plena aceleração, é fundamental para vislumbrar possibilidades viáveis e promissoras para as novas formas de comunicação e, também, de fazer publicidade. Tudo bem. Estamos falando de futuro. Mas, quando é mesmo o futuro?
Vamos imaginar essa nova mídia ao alcance do nosso Iphone. Um anúncio que começa com um texto, mas tem uma fotografia que, num clique, cria movimento e vira um vídeo. Estaremos vendo uma propaganda de jornal? Ou revista? Talvez uma TV? Na verdade, será TUDO ISSO em uma só apresentação, porque todos esses meios de comunicação terão características parecidas e estarão, ainda, interligados às Redes Sociais. Assim, teremos um ecossistema circundante, formado por um conjunto de opiniões que se respeitam, filtros de informações confiáveis, espaços privados, relacionamentos verdadeiros.  E os esforços estarão voltados para ganhar a preferência das pessoas.
As organizações vão passar por transformações, começando por manifestações de criatividade horizontais e colaborativas, saindo dos modelos tradicionais de hierarquia. O “quem fez” ou “quem criou”. E a propaganda vai migrar para a forma digital, interativa, móbile, social e vídeo. Os usuários terão o controle. Os veículos de comunicação serão, na verdade, um “cross-midia” com áudio, vídeo, texto, rede social, possibilidade de conexão, twitter, tudo numa coisa só. E o que vem a ser uma ferramenta de entretenimento, será encarado ao mesmo tempo como instrumento de trabalho, interatividade e informação constante.


Foto divulgação.


Links para esta postagem
O prazer da leitura é um deleite compreendido por poucos. Muitos não têm o hábito, alguns se rendem por necessidade ou obrigação. Contudo, apenas uma parcela da humanidade é capaz (por opção) de abrir um livro e entregar-se ao texto por pura satisfação.

O livro exerce o poder de seduzir os olhos, transformando letras em cenários num convite à mente humana para um “mergulho” que pode permear distâncias e épocas inimagináveis. Quem aprecia conhece bem o seu magnetismo. E mesmo os apelos visuais, auditivos e tecnológicos dos filmes, quase sempre, os deixam aquém da versão mágica do papel.

A viagem literária transpõe tempo e espaço e nos leva sutilmente à posição de esmerados expectadores ou coadjuvantes. Além do entretenimento, o leitor ganha dessa experiência a sabedoria de ilustres autores e seus mais rebuscados conteúdos. É pena tão pouca gente ter contato com os livros.

Os conteúdos que adentram a nossa casa pelos meios de comunicação, não raro, deixam muito a desejar. Enquanto isso, as livrarias estão com as prateleiras abarrotadas de livros, fazendo cachoeira de obras-primas. Autores que são verdadeiras fontes de sabedoria compartilham suas experiências e conhecimentos. Páginas e páginas dedicadas à pesquisa de causas interessantes, instigantes, dos mais diversos teores. Existem milhares de autores consagrados, obras esgotadas e reeditadas.

Inebriantes romances clássicos, dramas, policiais, auto-ajuda, religiosos e espiritualistas... Livros técnicos ou de uma área específica. Educação, psicologia, marketing, economia, política... Infinitos gêneros dos quais muitos têm interesse, mas poucos têm acesso, veja só: por causa da falta de hábito da leitura. Não é incrível?

Mas isso é coisa do passado. Graças à tecnologia e ao empreendedorismo de alguns, agora os livros podem fazer-se conhecidos entre aqueles que não gostam ou, por algum motivo, não podem ler. Como? Pelos ouvidos!

Está na moda o áudio livro. Obras literárias em CD, para ouvir no carro, durante os congestionamentos (comuns nas grandes metrópoles) ou enquanto faz-se a caminhada matinal. Práticos, também, para os que já apreciam os livros, mas pelo estilo de vida agitado dos dias atuais, não têm tempo para ler o quanto gostariam.

Um monte de gente se beneficia com o áudio livro. Imagine os deficientes visuais? Ou os que estão na terceira idade, quando a visão já não é lá essas coisas. Não é providencial? Podem ouvir um romance enquanto ocupam-se com algum trabalho manual. Fazer essas atividades “ouvindo” um bom livro é legal demais!

Não se trata de largar o velho e bom livro tradicional. Mas, de otimizar o nosso tempo com mais leitura. Bem, durante as minhas viagens de negócios, eu carrego sempre um livro debaixo do braço pra ler no avião. Já o áudio livro eu utilizo em ocasiões específicas. As mais comuns acontecem no trânsito, enquanto me desloco de um lugar para outro. Eu nem me estresso mais com os engarrafamentos! E cá pra nós, às vezes, já na garagem de casa, eu chego a ficar mais uns cinco minutinhos no carro se o capítulo estiver no seu ápice. É puro prazer.

Sobretudo, o áudio livro vem ocupar um papel importante na minha vida, na busca pela prática de caminhadas como exercício físico. Quem leu “A Saga da Academia” entende bem o que estou falando. Agora, sinto-me estimulada para caminhar. E, melhor, não sinto o tempo passar e nem fico ansiosa para terminar os meus seis quilômetros quase diários. Vou ouvindo aquela conversa de pé-de-ouvido, fazendo as minhas reflexões ou rindo sozinha... É muito bacana!

Pena, ainda terem poucas obras em CD. As opções ainda são muito restritas, comparando com o livro impresso. Mas, isto, é uma questão de tempo. Onde encontrar? Toda livraria já tem uma sessão de áudio livros, e o Google oferece vários sites com opções de compra pela internet ou para baixar o arquivo. Isto é o futuro. Cada vez mais a tecnologia nos dá ferramentas para mais e mais informação. E os ganhos que a gente pode ter com isso, tem a ver com a escolha de conteúdos e com o momento da prática desses novos hábitos. O áudio livro, portanto, é um bom companheiro para quando você estiver sozinho. Nada deve sobrepor os momentos em família e com os amigos.

Foto divulgação


Links para esta postagem
Pois é. Tudo começou num domingo enquanto eu caminhava no lago perto de casa. Aliás, “caminhar” é algo atlético demais para mim. Minha filha que é piolho de academia e vive metida nessas maratonas e pedaladas noturnas, sempre solta um risinho irônico quando batemos à porta de seu quarto nas tardes de domingo pra avisar que estamos indo fazer o nosso “cooper”. Ela costuma dizer que eu e meu marido fazemos um “passeio” no lago, enquanto admiramos a paisagem e jogamos conversa fora. Depois, completamos a inutilidade do semi-exercício comendo um pastel calórico.


Mas, nesse domingo, eu dizia para o meu companheiro de caminhada (em todos os sentidos) que, definitivamente, eu ia malhar de verdade. De uma hora para outra, bem ao estilo “fogo de palha”, eu estava determinada em manter uma atividade física frequente e pra valer. Isso era pauta do meu caderninho de “metas para 2010”. E já fazia as minhas conjecturas do tempo recorde que eu levaria pra estar com os músculos das minhas pernas ao ponto de matar de inveja a rainha de bateria da Beija Flor.


Meu marido ouvia tudo com uma cara de pouca fé, esboçando o seu típico “hunrum” a cada pausa da minha fala. Na verdade, aquilo era mais uma terapia de auto-persuasão intensiva, e quem eu mais tentava convencer era a mim mesma. Apesar dos meus cinquenta quilos, nada demais, perder três míseros quilinhos era uma questão de honra para mim, e a coisa mais difícil da minha vida.


Decidi naquele mesmo dia (antes que eu desistisse dos novos propósitos), ir à Centauro comprar halteres, caneleiras, e um colchonete para fazer as minhas duzentas abdominais diárias. Como o meu marido jamais joga um balde de água fria nos meus planos (graças a Deus), ele se prontificou a ir comigo pra me dar um apoio moral. A idéia era alternar caminhadas com exercícios em casa, já que eu tenho um verdadeiro abuso de academia.

Na manhã seguinte, já levantei da cama com pesos amarrados aos tornozelos e alteres na mão. Já na descida para o café-da-manhã, aproveitei o último degrau da escada pra fazer uma série exercícios nas panturrilhas. Chegava no trabalho esnobando as minhas duzentas flexões abdominais, deixando de queixo caído todas as colegas de sala.


Minha filha estava orgulhosa de mim, mas não perdia a oportunidade de mangar da minha cômica performance, carregando os acessórios de ginástica de um canto pra outro da casa. Se auto-elegeu minha personal trainer e pegou duro na correção de postura durante os exercícios. Quando meu marido chegava em casa, eu me exibia em poses de halterofilista. Terei colocado a minha sanidade em questão?


Tudo estava correndo às mil maravilhas nos primeiros quinze dias. Mas, bastou a minha primeira semana de viagem a trabalho pra toda a minha disposição ir de ralo abaixo. Embora quase todo hotel tenha academia e, evidentemente, toda cidade tenha rua para caminhar, depois de um dia puxado longe de casa, eu quero mais é que o mundo acabe.


Voltei para Fortaleza e nunca mais olhei para os acessórios de ginástica. Eu já estava “antipatizando” aqueles alteres, com repulsa de andar com pesos nas canelas pra cima e pra baixo, como se eu fosse uma presidiária.


Convencida de que por conta própria eu não iria a lugar nenhum, matriculei-me na academia onde a minha filha já malhava. E, para garantir, fiz logo um pacote de seis meses e paguei adiantado. Assim, por pena do meu suado dinheirinho, eu me obrigaria a comparecer.


A minha filha Manuela passou a malhar comigo, todas as noites. O povo comentava, achava lindo mãe e filha ali, pegando no pesado, bem amiguinhas. Se eu faltasse um dia, todo mundo perguntava “cadê a mamãe?”. Até que eu faltei uma semana, um mês, e ninguém lembrou mais de mim. E, embora eu não tenha esquecido os meus chequinhos pré-datados, abandonei.


Algum tempo depois, minha amiga Michelle apareceu saltitante, contando que estava fazendo jazz. Fiquei tão tentada... Lembrei dos velhos tempos que eu fazia dança no colégio. E a minha mãe vai saber agora que eu até gazeava aula pra ensaiar para os festivais, de tanto que eu amava jazz com todas as minhas forças. Pior é que a minha amiga Michelle tem nada menos que três filhos! Três, entendeu? Uma escadinha que começa com o caçula de oito meses. Contando com o marido, são quatro homens pra ela dar conta. E (para o meu despeito) ainda arruma disposição e tempo pra fazer jazz? Uma provocação!


- Ohw amiguinha, vamos fazer comigo, vamos! Só uma aulinha... - disse ela com sua típica voz de gata miando.


Eu fui? Fui. E saí toda moída. Quebrada! Até porque, eu me mostrei um pouquinho. Mas, acordei com uma ressaaaca no dia seguinte. Só de lembrar eu fazendo plié, demi-pilé, tendu, meia-ponta... Meio ridículo, né?


Frustrada, procurei minha irmã, Ana Paula, amicíssima, que compreende todos os meus dramas e sempre tem uma solução para os meus “problemas”. Quando eu borro a unha, logo após ter saído da manicure, é pra ela que eu ligo. Digo que estou arrasada, e ela me entende, me conforta e me dá toda razão por eu estar inconformadamente chateada, destruída. Contei-lhe da aula de jazz, que fiquei dando saltos no ar imitando uma pluma, fazendo piruetas como se estivesse abraçando a cintura do Jô Soares, como uma, uma... bocó!


Ela achou o “ó”, e me convenceu de que eu tinha mesmo era que entrar numa academia pra me sentir motivada. Mas, tinha que ser “a” academia. Aquela que fosse realmente estimulante. E, para isso, iríamos garimpar até encontrar a tal, mega-super-ultra-astral – e já se predispunha a embarcar comigo na empreitada porque, nem morta, eu iria humilhá-la com a minha barriga de tanque.


Foi aí que surgiu a grande idéia! Iríamos fazer várias aulas experimentais nas Academias de Fortaleza, até achar a ideal. Na primeira, fizemos uma aula de spinning. Eu queria provar pra minha irmã o quanto eu estava em forma, tipo “me mostrar” mesmo. Então, pedalei mais do que devia, tentando ser mais rápida e resistente que ela. Embora o professor recomendasse pra eu pegar mais leve, pois era a minha primeira vez, eu teria ido da Barra do Ceará à Praia do Futuro nos primeiros vinte minutos, se estivesse sobre uma bicicleta de verdade.


Dali a pouco a minha irmã olhou pra mim e viu que alguma coisa estava errada. Diz ela que eu, que já sou branca, estava tão pálida, que mais parecia uma alma penada. Alguns segundos e eu (pasmem) vomitei o chão, já revirando os olhos numa crise de hipoglicemia que me fez pagar o mico mais caro de toda a minha vida. O professor gritou pra uma aluna pegar uma garrafa de Gatorade na cantina, urgente. E, além da minha irmã, tinham mais três pessoas me abanando. Quando retornei, vi várias cabeças em círculo sobre mim.


Terminada a marmota, eu e minha irmã pusemos os rabinhos entre as pernas e “puxamos o carro” dali, jurando nunca mais por os pés naquela academia de tanta vergonha. Foi triste! Depois fomos à outra, e outra... Cada uma, um defeito: longe demais, lotada demais, estacionamento de menos, muito cara, os aparelhos eram nojentos, eca!


O meu enteado já estava nos chamando de irmãs metralha: -“Onde vocês vão dar o golpe, hoje?" - Ele é outro que vive malhando e só passa por mim de peito inflado. Eu vivo correndo atrás dele com uma trena na mão pra medir o seu bíceps braquial. Ele adora quando eu abro as duas bandas da porta pra ele passar (como se ele fosse enorme), fazendo um teatrinho de exclamações.


Certa manhã, enquanto eu desabafava a nossa indefinição, o meu marido teve uma crise de riso que quase o fez engasgar com café. – O quê foi? – perguntei. Ele falou que era melhor tomar logo uma decisão, antes que a gente se deparasse com um cartaz bem grande nas academias, com a nossa foto e a manchete: “Cuidado com as irmãs 171”.


Pois foi. Agora estamos correndo na praia. Quer dizer, hoje foi o nosso primeiro dia. Mas, eu chego lá. Vocês vão ver!


Foto: da esquerda para a direita, minha maninha Ana Paula e eu.


Links para esta postagem

Nossa casa tinha um quintal bem grande, chão de areia, onde passávamos as tardes brincando. Lembro que costumávamos matar formigas que se enfileiravam a caminho do formigueiro. Depois, as colocávamos em caixas de fósforos pra enterrar no “cemitério” sob o pé de siriguela (que tinha as folhas coloridas com tinta guache), com direito a cruz de palitos e reza. Uma brincadeira meio fúnebre, talvez.

Eu observava que elas, as formigas, pareciam se comunicar umas com as outras, algo como “negrada, recuem que os monstros enormes – nós – estão exterminando a nossa tropa!”. Bem, eu só sei que elas davam uma cabeçada (como se cochichassem no ouvido) e mudavam o rumo, apressadinhas. Às vezes, antes de dormir, eu ficava pensando se as sobreviventes estavam deprimidas com a morte de seus parentes.

Nessa época nem tinham nascido, ainda, nossos irmãos mais novos, Adriano e Bárbara. Eu e minhas três irmãs fazíamos tudo na mais absoluta cumplicidade. Na flor dos meus onze anos, eu era a mais velha da prole. As gêmeas estavam com oito, e a caçula com apenas seis.

A goiabeira era dividida em quatro partes por uma demarcação milimétrica em “xis” no solo. Cada uma tinha o seu “pedaço” e ninguém podia tirar goiaba do galho alheio. A gente sabia de cor quantas e onde estavam as goiabas verdes. Fiscalizávamos uma a uma todos os dias até amadurecerem. Não havia perigo de alguém pegar umazinha sem a outra perceber. E, quando isso acontecia a confusão era feia.

As gêmeas eram as mais sonsas. Negavam de pés juntos, sem a língua tremer. Eu sempre desconfiava delas quando uma goiaba sumia porque a Paulinha era muito inocentezinha e, além do mais, ela preferia mesmo era raspar as paredes e comer barro. Eu, era metida a santinha. Minha melhor amiga, Marivone, sonhava em ser freira e enchia o seu caderno, as árvores do pátio do colégio e portas do banheiro feminino de corações com a frase “Marivone e Deus”. Nós duas passávamos toda a hora do recreio na capela, rezando de joelhos. Parece mentira. Mas eu juro. Jurar é pecado?

Mas, quando a gente brincava de casinha, eu sempre gostava de ser a mãe e dar as ordens. Obrigava as filhas a comerem verdura imaginária e botava todo mundo de castigo. Ao terminar a brincadeira, minhas irmãs faziam uma “cadeirinha” com os braços pra eu sentar, enquanto a gente cantava bem alto: “e foi assim que a nossa história aconteceeeeeeeu!!!” - e o “eeeeu” ecoava até a garganta não aguentar – como a música que encerrava o nosso disco de estorinha do Robin Hood.

Como todas as atividades, o banho também era coletivo. A gente fazia muita algazarra no banheiro. Um dia, inventamos uma brincadeira de apertar o sabonete entre as mãos até ele escapulir. A irmã do lado tinha que aparar e ir passando pra outra da roda, e assim o sabonete circulava de mão em mão. Se alguém deixasse cair, tinha que pagar a prenda costumeira de “comer barata assada”. Embora fosse uma prenda faz-de-conta, era incrível como a gente ficava nervosa e excitada só de pensar em derrubar o sabonete.

Então, depois de todas já terem “comido barata assada” várias vezes, o sabonete, por fim, escapuliu como num salto de trampolim, justo pra dentro do vaso sanitário. O Phebo novinho, aberto naquela semana, estava lá no fundo sob o nosso xixi. A mamãe ficaria histérica se soubesse. Dessa vez, a prenda da minha irmã foi tirar o sabonete de onde ela deixou cair. Correu molhada até a cozinha e voltou com um papeiro de ágata na mão. Dá pra imaginar o resto, né?

Horas mais tarde, estávamos brincando na casa da vizinha, quando ouvimos a mamãe gritar:

- Ohw Cristina, Cristiane, Cristiene e Ana Paula! - essa última escapou por pouco de o papai registrá-la com o nome de Cristineide, não fosse a mamãe ter surtado.

Dez minutos depois, sempre na mesma ordem – a do nascimento:

- Ohw Cristina, Cristiane, Cristiene e Ana Paula! Venham jantar agora!

A São Braz, nesse ano, tinha acabado de lançar a canjiquinha, e a mamãe enchia a despensa da tal “Canjiquinha São Braz” porque a gente adorava. O menu se repetia, pelo menos, cinco vezes por semana.

E, pela derradeira vez, a mamãe se esgoelou:

- Ohw Cristiiiiina, Cristiaaaane, Cristieeene e Aaaana Paula! Vão obedecer não, é? Pois eu tô doidinha pra dar palmada em menina teimosa! Veeeenham!

E lá vem a gente correndo, uma atrás da outra, mãozinhas para trás, protegendo as nádegas. Geralmente, a gente passava tão rápido que só a última levava a palmada. Ninguém queria ficar no fim da fila (parecia olimpíada na prova dos cinquenta metros).

- Mas, será o Benedito? A canjiquinha tá esfriando na mesa faz tempo! Diacho! Porque que vocês me tiram a paciência! Teimosinhas! Não ouviram eu chamar? E tratem de comer tudinho, pois eu vou guardar a palmada pra quem não raspar o prato!

Ela dizia aquilo porque sabia que a gente amava canjiquinha. Era mais fácil a gente repetir que deixar sobrar. Mas, ninguém sabia o que nos esperava! Corremos pra cozinha e sentamos “the flash” no intuito de proteger as nossas bundas.

Tomamos um susto e nos entreolhamos com a cumplicidade peculiar. Lá estava! O papeiro de ágata, o dito cujo que salvou o Phebo, cheio de canjiquinha e canela. Ficamos sem ação. E agora? Contar a verdade, jamais! Comer aquilo, nem pensar!

- Vocês são muito teimosas, minhas filhas! A mamãe não gosta de brigar, não! Mas vocês me tiram do sério. Pronto! Agora comam a canjiquinha que a mamãe fez, comam, comam...

- Mas, ma-mamãe... – gaguejou a autora do crime no banheiro - é que a gente tá sem fo-fome.

- O quê? De jeito nenhum! Vão comer sim. Vocês não são loucas por Canjiquinha São Braz? Pois eu não saio daqui enquanto não ver esse papeiro raspadinho. Vamos ver quem acaba primeiro. Vamos, vamos!


Links para esta postagem
Era uma daquelas semanas rotineiras longe de casa. Eu estava no hotel, em Copacabana, apressada para a minha primeira reunião do dia. Sobre a cama, notebook, agenda, celular, meus creminhos antiidade, toda a parafernália de maquiagem, e um humilde Toddynho (porque não ia sobrar tempo de descer para o café-da-manhã). Enquanto respondia e-mails, dava batidinhas no rosto com os dedos e tomava o meu achocolatado, assistia a uma entrevista do Ministro da Saúde, José Temporão, sobre a vacina contra a Influenza H1N1. Em meio aos esclarecimentos sobre a vacinação, num parêntese de informalidade, o Ministro declarou não ser brasileiro. Surpreendida com a informação, aumentei o volume da TV e corri rumo ao banheiro pra escovar os dentes (pela segunda vez).

- Eu nasci em Portugal” – dizia o Ministro.

Um sorriso “empastado” para o espelho. - Minha nossa senhora! Com que roupa eu vou? - dramatizei.

- Sou luso-carioca, porque cheguei ao Rio de Janeiro no dia em que eu estava fazendo um ano de idade!” - Imaginei um menino bochechudo numa roupa de marinheiro.

Quinze segundos encarando a mala. Separei o casaquinho branco e o lenço de seda azul - fiz ar de indecisão. Alguma semelhança com o figurino do Temporãozinho imaginário?

- Meu pai, José Temporão, é dono de um restaurante muito tradicional aqui no Rio de Janeiro. Mosteiro, Restaurante Mosteiro. Há quase 50 anos!” - Fiz as contas da idade do Ministro.

Tirei o bob da franja, flexionei o tronco (meus joelhos disseram “oi” pra mim) e amassei as madeixas com o meu fluido milagroso Expert Liss Ultime Serum Perfecteur de Brillance – Han?

- Culinária portuguesa. Tem umas empadas sensacionais, vale à pena! É a melhor do Brasil. Sensacional!”.
...
Temporão, tempero... Que temperão essas empadas devem ter – devaneei à medida que colocava os brincos, ajeitava o lencinho no pescoço e beijava um pedaço de papel higiênico (é pra tirar o excesso do batom, viu?). Chamei o tio Google, digitei “Mosteiro”, anotei o endereço, borrifei perfume atrás da orelha, abri a porta com o cotovelo e sai com os braços abarrotados, celular espremido no ombro. – Alô!

Naquela manhã, minha última reunião era no centro do Rio. Destino? Não levei mais que dez minutos de taxi! O endereço fica numa ladeira de mão única, a São Bento, número 13. Lá estava o tal Mosteiro. O cortês porteiro grandalhão mais parecia um pigmeu defronte à porta colossal. Dentro, as paredes e colunas revestidas em madeira, os muitos lustres e quadros dão a sensação de aconchego e um toque clássico à decoração. Tudo parece ser cuidado nos detalhes. Falei ao garçom que estava ali pra conferir a indicação do Ministro Temporão, citando brevemente a entrevista.

Mal me acomodei à mesa, sem que eu pedisse, serviram-me uma empada. Não foi bem algo do tipo, “a senhora aceita?”. Aquela veio pra mim sob encomendada. Fiquei em dúvida se era uma cortesia, mas não questionei. Afinal, eu ia mesmo querer uma. Sabe aquela massa fofinha que derrete na boca e não esfarela na roupa? No ponto. E o recheio? O Ministro não exagerou. Para almoçar, o menu oferecia umas vinte opções de bacalhau – escolhi uma. Perfeito! Fez jus às minhas expectativas. Não é todo dia que a gente se dá ao luxo de almoçar num restaurante daquela categoria. Então, fiquei a saborear o prato sem pressa, enquanto observava, com discrição, o movimento da casa e as pessoas.

Certo momento, uma figura curiosa. Um senhorzinho, talvez mais velho que a sua aparência. Cabelos pretos como uma graúna, terno impecável, e uma simpatia que de longe transbordava no sorriso emblemático, que só se fechava quando passava uma bandeja, que ele acompanhava girando sobre os calcanhares, com o olhar esticado, até se certificar se a expressão do cliente na primeira garfada era de satisfação. Às vezes desaparecia pela cozinha, e logo voltava cumprimentando a todos como faz um bom anfitrião. Era o pai do ministro – constatei. E lá vinha ele em minha direção. Já chegou perguntando se eu havia aprovado a empada, ou não.

– Maravilhosa! Assim como o bacalhau. O senhor é o seu Temporão, não é? – me certifiquei – Quanto prazer!

Ele já sabia que eu havia visto a entrevista e lamentou não ter podido assistir. Falei que havia ficado surpresa ao saber que o Ministro não era brasileiro. E o que ele me contou? Que chegou ao Brasil no dia em que o filho completava um aninho.

– Ele disse isto na entrevista! – falei eufórica (doida pra investigar se ele vestia uma roupa de marinheiro, como era costume as crianças usarem antigamente).

Tivemos uma conversa animada! E quase não acreditei quando ele me contou a sua idade. Oitenta e seis anos. É mole? E o segredo de toda aquela energia: trabalho, muito trabalho, dedicação e amor ao que faz. Ganhei a minha hora de almoço só por conhecer aquele homem notável por sua elegância e vivacidade. Se já não bastasse a comida e atendimento excelentes, para minha maior surpresa:

- Hoje, a senhora não vai pagar nada. É cortesia da casa!

- De jeito nenhum, seu Temporão! Eu faço questão de pagar.

- A senhora não vai me impedir de um gesto cavalheiresco! – finalizou com um sorriso. E saiu todo faceiro pelo salão, segurando as mãos para trás e olhos vivos para as bandejas. Fiquei hipnotizada, boquiaberta, me beliscando. Que dia!

Foto: divulgação


Links para esta postagem

Eu tinha muita vontade de conhecer a Europa, e um desejo desesperado por Paris. Nas férias do último abril, por fim, eu e o maridão fizemos a viagem sonhada com gostinho de lua-de-mel. Partindo de Fortaleza, começamos por Portugal e seguimos até Madri de avião, onde iniciamos um tour de vários dias por terra, passando por muitos países, cidades, e paisagens de cair o queixo (que parecem só existir nos slides de powerpoint dessas mensagens e correntes que enchem a nossa caixa de e-mail).

Propositalmente, escolhi um roteiro que terminasse em Paris para um “magnifique finale”. É claro que tenho muitas histórias e curiosidades pra contar de todos os lugares que passamos. Mas, gostaria de começar pelo último destino. O mais ansiado: Paris.

Depois de duas semanas percorrendo a Europa histórica, chegamos à Cidade Luz na oportuníssima hora do pôr-do-sol. Da janela do ônibus contemplei, emocionada, os últimos instantes do astro que parecia acenar pra mim, incendiando as plantações da estrada, imergindo na linha do horizonte. Senti-me regressando a um lugar que já havia estado antes, nos romances que li. A Paris de “Travessuras da Menina Má”, ou do “Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, meu livro e filme favoritos.

Mágico foi ouvir o charmoso francês por toda parte e ver a arquitetura das fachadas, as tulipas colorindo os canteiros e o povo à caça de um pedaço de luz pra se aquecer. Eles se esticam na grama das praças - como se estivessem em suas camas -, “quaram” nos cafés e nas escadarias dos prédios, sempre sob o sol e, comumente, imersos em alguma leitura (achei esse detalhe, o máximo).

Visitamos a Torre Eiffel, o Louvre, a famosa Catedral de Notre-Dame, o Palácio de Versailles, e fizemos o tradicional passeio de barco pelo fascinante Sena, para onde Vargas Llosa me transportou tantas vezes nos diálogos picantes de “Ricardito e a Menina Má” quando caminhavam por suas margens. Também, fomos ao pitoresco bairro onde acontece a maioria das cenas de Amélie Poulain. O Montmartre. Situado no alto de uma colina, subimos de bondinho e, na volta, descemos saltitantes os 240 degraus. Caminhamos por suas ruas de paralelepípedo, visitamos a Sacré-Coeur e jantamos “spaghetti bolognaise” em um de seus restaurantes aconchegantes sem dispensar o “bon vin rouge”.

Tivemos uma overdose de “arte & cultura”, porque pra onde você se vira, se esbarra numa “obra-prima”. Porém, esse estilo de pacote “maratona turística” tem um lado muito cruel, que é o da “pressão”. Em plenas férias, hora pra tudo. O telefone toca pra despertar quase de madrugada. Aí você tem que enfrentar o banheiro no frio, se arrumar em tempo recorde (imagine que eu tenho um ritual de creminhos, maquiagem e vários “processos”). Por fim, a mala - que a cada dia fica mais difícil de fechar -, tem que estar no corredor em meia hora, caso contrário, você mesmo terá que carregá-la, explodindo de suvenires. Até que, finalmente, você se senta pra tomar o café-da-manhã com os minutos contados pra não perder o ônibus (cansou?). Mas, dormir ou descansar em euros custa muito caro, meu bem. Então, você faz tudo rapidinho e sorrindo.

A verdade é que eu estava louca pra “me soltar”. Queria andar pelas ruas sem pressa, sentir o cheiro da cidade - mesmo que os franceses não gostem de tomar banho -, explorar a Cidade Luz, sem guia decretando o minuto de voltar. Talvez, sentar num café e ficar a toa, só espiando o povo. Ou, simplesmente, ouvindo a conversa da mesa ao lado, em francês, mesmo que eu não entendesse nadinha. Eu queria “me afoitar” em Paris (coisa de sagitariana).

Certa tarde, saindo do Louvre, parecia cedo, porque o sol por lá se põe bem tarde. Então, eu, meu amado marido, e três casais que haviam se tornado amigos e companheiros de aventura, decidimos voltar à Torre Eiffel onde só havíamos estado de passagem. A brasileira, vendedora da loja de perfumes, nos ensinou a ir de ônibus. Como a Torre é muito alta, dá pra avistá-la de longe. E quando ela nos pareceu bem próxima, saltamos em sua direção e caminhamos até lá beirando o Sena.

Linda, imponente, maior que eu podia imaginar. Subimos o elevador até o seu último andar e vimos toda Paris lá do alto da Torre Eiffel. O sol se pôs majestoso como um presente de Deus aos nossos olhos. Mesmo sendo primavera fazia muito frio e o vento nos dava uma sensação térmica pior. Eu me sentia congelar. Desejei o calor que eu tanto amaldiçôo do meu Ceará.

Quando descemos já era noite, e não tão cedo para um céu que há pouco estava claro. Fizemos uma horinha, pensamos em procurar um lugar pra comer, mas o frio apressou a vontade de voltar para o hotel e nos enfiar debaixo do edredom. Além do mais, estávamos esgotados, pois esse foi um dos dias mais puxados, com horas imensuráveis em pé e quilômetros de caminhada no Louvre. E, para completar, a fome apertava o estômago.

Infelizmente, os nossos amigos não estavam hospedados no mesmo hotel que nós. Juntos, eles iam arriscar o metrô. Pra não nos aventurarmos sozinhos, meu marido sugeriu pegarmos um taxi. - Taxi? - cochichei. - O hotel é do outro lado da cidade! Faz idéia de quanto vai custar essa corrida? E, se a gente multiplica por dois e meio, dá uma fortuna!

Seguimos com os nossos novos amigos, unidos como velhos camaradas. Um casal baiano e dois casais paulistanos. Esses últimos, principalmente, já deviam estar acostumados com metrô. Mas nós? Fortaleza nem inaugurou o metrô! Enfiamos o ticket na catraca e fizemos uma “moita” na frente daquele mapa maluco da parede, com várias linhas na horizontal, vertical, diagonal, estilo os desenhos que a minha filha fazia quando tinha quatro anos.

Na confusão, entendemos que a linha que deveríamos pegar era a mesma do resto da turma, e melhor, com apenas um trecho. Uma reta pra chegar ao nosso destino, que era a Estação Gallieni. Subimos animados. Ali seria a nossa despedida, pois, na manhã seguinte, permaneceríamos em Paris, enquanto os nossos amigos partiriam para Londres. Não demorou muito para percebermos que a Gallieni não constava entre os nomes das Estações da rota daquele trem. Eu e meu marido nos entreolhamos receosos. Senti um friozinho na barriga e sussurrei:

- Pegamos o bonde errado. E agora? O que será de nós sem entender bulhufas de francês?

Os amigos perceberam a nossa apreensão. Perguntaram se havia algum problema. Mas, o trem já freava na estação deles, e nós tentávamos pedir informação a outro passageiro, enquanto abríamos um mapa-sanfona do metrô que eu guardava na bolsa. Foram instantes de angústia geral. Notamos o semblante de preocupação dos nossos amigos. A simpática paulistana, Ana Rita, parecia se valer de São Longuinho, chefe do “Departamento Celestial de Achados e Perdidos”. Numa fração de segundos, compartilhamos sensações de aflição, e não deu sequer tempo (nem havia clima) de nos despedirmos. Deram um adeus triste e desceram. Foi horrível! A porta do trem fechou e voltamos o olhar para o homem que tinha, agora, as sobrancelhas arqueadas de interrogação.

- S'il vous plaît, monsieur ! Je suis brésilienne et... (Por favor, senhor! Eu sou brasileira e...)

- Vous parlez… Do you speak English?

- Pode ser Espanhol? Quer dizer... Do you speak Spanish??

As sobrancelhas do homem desabaram e, espremendo os olhos, disse algo em francês. Talvez um, “vocês tão ferrados, babacões”.

Sorri simpática e balbuciei:

- Hããã? Pardon... Je ne parle pas Français et... Je voudrais aller à la... (e com dedo apontado para o mapa) Gallieni! Oui? Gallieni!!!

A resposta foi longa. Enquanto apontava para vários pontos do mapa, ele falava feito uma metralhadora:

- rajamaissurcetrainfautdescendreetalleràuneautrestationdesesventousesseusotários!

Em seguida, levantou-se rápido e finalizou, dando a entender que havia chegado a sua estação.

A porta abriu e fechou, outra vez, e o trem seguiu em disparada, para onde não tínhamos a menor idéia. Ali estávamos nós, sob o solo de Paris, altas horas, perdidinhos da silva. Alguns minutos de silêncio, várias estações, gente subindo, gente descendo.

- Estamos nos distanciando ainda mais. Vamos descer agora! – disse, puxando a mão do meu marido na primeira nova parada.

Descemos num impulso. Murchos, sentamos na estação. Meu marido se concentrou no mapa, como quem lê um romance, enquanto outros trens paravam e seguiam. Podíamos sair do metrô e procurar um taxi. Mas, e se não tivesse ponto de táxi nas imediações? E se estivéssemos num subúrbio, nos ermos de Paris? Melhor, primeiro, tentar nos situar. Descobrir onde estávamos. Mas, será se adiantaria? – eu pensava. Fomos dar uma volta. Foi quando nos demos conta do tamanho e complexidade (para nós, leigos) do metrô de Paris. Parecia uma encruzilhada, um labirinto. Corredores, escadas, corredores, escadas, setas pra lá e pra cá. Rodamos, rodamos e paramos tontos em outra estação.

- Vamos perguntar!

- Peraí! Só um pouquinho... Estou quase entendendo esse mapa aqui.

Impaciente, levantei e fui até um rapaz com cara de bonzinho. Fiz uma expressão de quase desespero...

- Pardon, monsieur! Je suis brésilienne et... Je ne parle pas Français. Je voudrais aller à la Gallieni... Gallieni, please! Quer dizer, s'il vous plaît!

- Station Gallieni?

- Oui! Oui! Gallieni! Gallieni! – respondi entusiástica.

Ele disse umas coisas lá que eu não entendi merreca, e apontou pra uma saída.

- Merci! Merci!

E corri para o meu marido toda feliz. É por ali, amor! Vamos!

- Meu marido saiu apressado, sem tirar a vista do mapa. Fazia conjecturas a respeito do mapa, como quem está desvendando um tesouro e tem todo o tempo do mundo.

Seguimos pela saída indicada. Andamos uns dez metros e paramos, porque tinha um cruzamento. Não sabíamos se íamos em frente, ou se dobrávamos à direita, ou pegávamos uma escada à esquerda. Tinha uma placa indicando milhões de estações, mas o nome da Gallieni nem “tchum”.

- Vamos perguntar de novo! – eu disse.

- Deixa eu ver o mapa, peraí!

- Meu amor! Cadê a gente aí!? Onde nós estamos nesse mapa? Pode me dizer?

- Se você me deixar raciocinar e parar de teimosia... Já tô quase encontrando. Acho que é por aqui (meu marido vai vetar esse texto).

Fomos. Chegamos numa estação no exato momento que um trem abria as portas. Como a gente não tinha certeza de nada mesmo, subimos. Ao ler o nome das estações dentro do trem, pasmei: rodamos, rodamos, e subimos no mesmo lugar onde havíamos descido minutos atrás. Estávamos na mesma rota do trem anterior. O jeito foi rir. Descemos de novo.

O meu juízo já estava apertado e o estômago reclamava de fome. Vi uma mocinha sentada, lendo um livro, e antes que o meu marido me segurasse, fui até ela.

- Mademoiselle... Pardon! Je suis brésilienne et... Je ne parle pas Français... - falei com uma voz de coitada.

A francesinha muda, séria, sem expressão nenhuma, olhava firme pra mim.

- Je voudrais aller à la Galiene! Galiene!? – eu dizia enquanto levantava os ombros, com a palma das mãos pra cima, balançando a cabeça, como quem pergunta “cadê a Galiene pelamordedeus?”.

Sem dizer uma palavra, levantou-se e saiu andando apressadinha. Cheguei a pensar que ela estava fugindo de mim. Mas, acelerei o passo atrás, enquanto acenava para o meu marido me seguir. Ela parou na frente de um mapa do metrô enorme e deu batidinhas com a unha num ponto, onde eu quase não acreditei ler: “GALIENE”. Com o outro dedo, braço esticado, ela apontou para a estação que estávamos naquele momento. Credo! Era do outro lado! Longe, muito longe. Respirou fundo - como quem pensa “como é que eu vou explicar?” -, e prosseguiu. Fez um risco com o dedo a partir da estação que estávamos até uma tal de "Nation", e fechou a outra mão em concha num vai e vem pra baixo (gesto obsceno no Brasil), como quem diz “desçam aqui!”. Então, fez um “paz e amor” invertido, balançando o “indicador e o maior de todos”, determinando “caminhem para essa estação” -, onde batia com a outra mão. E, como uma general, escorregou o delo pela linha daquela estação, mostrando que sua parada final era justamente a Gallieni. Ufa!!! Por fim, abriu um sorriso amarelo e deu as costas no mesmo passo avexado. Sequer deu bolas pra mim com as mãos unidas em posição de reza, enquanto dizia “merci, merci, mademoiselle!”.

- E agora? Será se entendemos? Vamos recapitular – disse confusa.

Revimos o percurso e um clarão enorme se acendeu. Tudo parecia simples, embora complicado. Hã?

Fomos atrás da estação que nos levaria – pela hóstia sagrada - à outra estação que nos deixaria, finalmente, na tal Gallieni.

Penamos um pouquinho, mas, achamos. Descemos na Nation, mudamos de trem e saltamos na Republique pra pegar o último trem que nos levaria de volta ao hotel. Assim que subimos, procuramos na lista das estações o nome da Gallieni. E lá estava. Eu queria subir na cadeira e beijar aquele nome. Que alívio! Mas, na primeira parada, percebemos que estávamos na direção oposta. Descemos. Tive medo de nos perdermos de novo tentando achar o ou outro lado da mesma estação. Deu vontade de pular nos trilhos e saltar para o lado de lá. Que loucura! Por fim, deu tudo certo. Pegamos o nosso trem. Sentamos exaustos e relaxamos felizes. Só reclamávamos da fome. E o restaurante do hotel já devia estar fechado. E por falar em hotel, ainda tínhamos que encontrá-lo.

Descemos na Gallieni sãos e salvos - merci, mon Dieu! - e subimos a escada que nos levaria até o solo. Agora, cada um pensava melhor entender aquele metrô. Olhamos para o alto em busca do hotel. Uma surpresa: a placa do McDonald’s bem na saída. E, um pouco mais a frente, a do NOVOTEL. Foi o “Mc” mais gostoso da nossa vida. Desmaiamos sob o edredom. Final feliz!


Links para esta postagem

Quando viajo a trabalho, ando sempre de taxi. Bem, posso afirmar que tenho vivido boa parte da minha vida dentro de um, nos últimos anos. Descobri que taxistas são contadores de histórias e seus passageiros, terapeutas, com quem eles desabafam os problemas e se aconselham.

Em certas cidades, tenho um taxista exclusivo que fica à minha disposição a semana inteira. A consulta começa do aeroporto para o hotel, com uma recapitulação dos antigos acontecimentos (que já foram submetidos à minha “psicanálise”), ultimada por um “pois bem!” que introduz uma “fileira” de novos fatos detalhados um a um, no caminho entre uma e outra reunião, cujo endereço eles já sabem de cor. Já peguei cada “causo” que, sinceramente, não resisto em “declamar” pra família nos cafés-da-manhã, imitando os sotaques, trejeitos, e os vícios de linguagem mais engraçados dessa diversidade que é o Brasil.

Alguns taxistas se tornaram amigos. Como o seu Sousa de Recife. O número um, o meu preferido. Percebo sua satisfação no saudoso “minha patroa!” carregado de alegria, a cada chegada minha. Seu Sousa é mais que um amigo, eu tenho um irmão Pernambucano. Conheço sua vida todinha, floreada pelos álbuns de fotografia da família que ele leva no “porta luvas” só pra me mostrar. A formatura do filho Tiago, o menino de ouro formado em biomedicina. A festa de aniversário temática dos anos 60, nos cinqüenta anos da Dona Joana, sua “mulé” (como ele diz). A esposa, de quem ele fala cheio orgulho. "- Mulé letrada, visse?" - A falecida sogra ainda tem o quarto intacto, na casa dele.

– Ôche, dona Cristina! Minha mulé conserva tudim do mesmo jeito, intendesse? E num é que o cheiro dela tá impregnado no quarto até hoje, visse?

O seu Sousa tem sempre uma conversa pra jogar fora, ou um “babado forte” pra contar!

- Pois é, minha patroa... eu tenho andado assim, meio pensativo, visse?! É que minha mulé é querida di-mais! O telefone lá de casa só toca pra ela, num sabe? Num tem uma veizinha que seja pra mim, intendesse? Tá certo que ela é uma mulé muito boa, num tem maldade nin-uma, visse!? Pense num coração bom! Olhe, as amigas dela paparicam ela, e é muito! Meniiino! Aí, eu tava pensando: e, pois não é, que eu não tenho amigo nin-um! A senhora acredita? Isso é normal, é?

– Seu Sousa, e eu não sou sua amiga, não, heim?

- Vixe! É mesmo, né?

É mesmo, mesmo! O seu Sousa é do tipo que ainda liga depois que eu chego de viagem só pra se certificar se a viagem foi boa, e exclamar um “Graças a Deus e até breve”. Isso não é amizade verdadeira, não?
...

Eu ia pra uma reunião no SBT em Osasco/SP, quando peguei o taxi do Seu Antonio pela primeira vez, na Alameda Jaú com Augusta. Muito simpático e cortez, cumprimentou-me pelo retrovisor com os seus olhinhos miúdos através dos óculos:

- Pôsh não! Desejas irr prra onde, senhora?

Logo reconheci o sotaque português. Tinha uns cabelinhos de neve e usava terno cinza e cachecol. Percebi que já tinha idade para estar aposentado. Oitenta e dois anos! Revelou-me nos primeiros minutos de conversa.

- Cristina? Tens o nome de minha neta! Vejas que feliz coincidência!

Aos poucos fui encantando-me com sua figura graciosa e original. Ali começou mais uma terapia. Contou-me sua vida (a Marginal estava em obra, não faltou tempo, nem congestionamento).

- Pôsh então, dona Cristina! Cheguei em SP ainda meninote. Aqui, conheci o amor da minha vida... a minha Conceição. Tivemos duas filhas espetaculares (“debulhou” a vida das filhas). A minha Conceição tem Alzheimer, e tem mania por sapatos. Ela me pede para comprar um par a cada semana, porque ela esquece que os tem. Eu digo: - Mas, e aqueles que tu nem usaste ainda, meu bem? – Quais Antônio? Tu sonhaste? Eu estou descalsada! Estais a me negar um par de sapatos? - E eu não resisto, dona Cristina. Porque se nego alguma coisa pra minha Conceição, fico com tanto remorso! Nossa senhora!

No final da semana, levou-me do hotel ao aeroporto de Congonhas (mais congestionamento, um convite à nova terapia). No caminho, mostrou-me a fotografia da sua Conceição.

- Vejas com é linda, a minha Conceição!

Vi aquela senhorinha franzina, agarrada à cintura do seu Antônio mais moço.

- Como é linda a sua esposa, Seu Antônio! Muito linda! Uma diva!

- Nesta “chapa”, meu bem, ela tinha acabado de se recuperar do lúpus! Sofreu muito com essa doença, tadinha! Eu quase fico viúvo! E o piorr é que ela também tem diabetes, e é doida por docinho de abóbora! Ash vezes eu compro, escondido da nossa filha! Sim, porrque moramos com nossa filha, Sônia! E não é que a minha Sônia encontrou os docinhos escondidos no guarda-roupa, dias desses!? Ah, foi terível, dona Cristina! Chamou-me de irés-ponsável. Ela não compreende, percerbes? Como vou conseguir dizer não à minha Conceição? Ela aprecia demais, aqueles docinhos! Sabes d’uma cousa, Dona Cristina! Eu e minha Conceição nos amamos b’stante graças ao bom Deus! Àsh vezes, tenho pena de vir trabalhar, porque todas as manhãs ela dish: - Meu Antônio, eu te amo tanto, meu amor. Tu ficas comigo só hoje? Aí eu não resisto. Fico mash um pouquinho abraçadinho com ela na cama!

E, suspendendo os óculos, levou o lenço aos olhos, e continuou:

- Olhe, Dona Cristina (disse olhando-me pelo retrovisor), eu peço tanto a Deus pra não levar a minha Conceição, porque a pobrezinha é tão debilitada... Parece um passarinho! Mas, Deus tem feito tantos milagres! E a cada páscoa ou cada natal que passamos juntos, eu compro Vinho do Porto que ela adora de paixão, sem a nossa Sonia saber, é claro! - por causa da diabetes. E nós brindamos escondidinhos no quarto, mais uma data juntos! E ela diz toda alegrinha: oh, meu Antônio, que seria de mim se não fosse tu?”

Já estávamos chegando ao aeroporto e, a essa altura, a minha echarpe já estava ensopada de lágrimas. Quando desci do carro e o seu Antonio ficou de pé, vi o quanto ele era um vovozinho fofo, desses que a gente tem vontade de abraçar. Tão velhinho, que fiquei com pena dele pegar a minha mala de chumbo. Mas, ele insistiu, disse que ainda tinha força nos braços! Deu-me um abraço e falou:

- Dona Cristina, a senhora agora tem um amigo em SP. E é para o que derr e vierr! E eu desejo que a senhora seja muito feliz, má muito feliz com o seu esposo. E que o amor de vocês seja tão lindo e verdadeiro como o meu e da minha Conceição!

Sai arrastando a minha mala aos prantos, acabada, e certamente chamei a atenção na fila do check-in, contando a história pra minha filha pelo celular (porque, essa, eu precisava compartilhar ao calor da emoção). A Manuela choramingou do outro lado da linha... “- Ohw, meu Deus, o bichim” – Depois, eu ri de mim sozinha no avião, e dessa minha vida. Passava um tempo, e eu ria de novo. Ri várias vezes. Terei chamado a atenção?
...

Em Salvador, não tive essa sorte toda, não. Antes, pegava o taxi do seu Edgar. Mas, um dia, “na terapia”, ele me contou com a maior naturalidade que participava dessas brigas de aves silvestres, e que a polícia ambiental havia apreendido uns canários dele. Engoli o ódio, fiquei tão decepcionada com o malvado! Depois dessa conversa, ele nunca mais ouviu falar de mim. Então, passei a andar com outro taxista, o Ivan. Por mera coincidência baiana (e que me perdoem os amigos de lá), quase sempre que retorno da reunião, me deparo com a cena cômica, se não fosse constrangedora: o banco do carro declinado e ele cochilando com os pés trepados na direção. Outra vez, ao ligar pra reclamar o seu atraso, pasmei do outro lado da linha: “-Tô chegando, nêga!” Nega? Não é intimidade demais? Que baiano “entrão”! Fiquei tão passada que nem tive ação de responder.
...

Em Porto Alegre, tem um taxista que é colecionador de carro velho. Ele compra as latas-velhas caindo aos pedaços. “– Bah! Eu desmonto tudo, arrumo, boto uma água-de-cheiro e vendo, tchê! Ajuda a comprar a bóia e a pagar o colégio dos guris! Que tal?” - Numa corrida, me deu uma aula completa de como limpar as velas do motor.

Já no Rio de Janeiro, gosto de pegar o taxi do seu Osnir. Um japonês cuja filha toca violino. Ele gosta de músicas clássicas como eu, e até fez questão de me dar o seu cd que eu estava ouvindo no taxi! Em Belo Horizonte, eu tenho o seu Eduardo. Sabe aquele mineiro do sotaque bem “amineirado” mesmo? Que fala “esse trem”, “uai”, “bucadim”... Ohw terra do povo pra eu gostar! O filho dele estuda música também (como a filha do “japa” carioca). Só que ao invés do violino, ele toca flauta. O seu Eduardo adora “rasgar uma seda” para o filho, que estuda na Universidade Federal de BH. E, entre os melhores, é integrante da orquestra da Instituição de Ensino. Mas, não gosta muito dos comentários da família.

- Ói, Dona Cristina, eu num güento eles dizê que musca é coisa de viado, sô! Fale deu! Mar num fale do meu mulequim, não! O minino é macho, e é isforçado! Deusde o ano passado que eu tô pelejando pra pagá o diacho dessa flauta! Pense num trem caro! Já tocô em Beraba, Berlândia, Jizdifora...

A primeira vez que vi o seu Eduardo foi numa “corrida” da TV Alterosa para o Aeroporto de Confins. Eu estava atrasada para o vôo, mas ele me convenceu a passar no mercado pra comprar um queijo mineiro.

- Prestenção, dona Cristina! A sin-ora num pode chegar em casa sem um queijo minêro. O marido vai perguntá “quêde o quêjo?”. É quinem eu ir à Furtaleza e num Tumá um bãe de má. É mió num arriscá! E ainda pruveita e compra um bucadim de lingüiça, sô!

- Homem, dê aí marcha à ré e me leve logo nesse mercado! Mas tem que ser avexado!


Links para esta postagem

Se a nossa aura fosse tão perceptível quanto o nosso cabelo, pareceríamos diferentes da imagem que projetamos no dia-a-dia, através de atitudes ponderadas? Algo mudaria na forma como as pessoas nos vêem, se as minúcias da nossa personalidade fossem desveladas? Pensemos se haveria algo de que nos envergonhar, se os nossos instintos e pensamentos mais íntimos fossem jogados ao vento. Somos tão predispostos em apontar o defeito do outro, mas, pouco endereçamos esse olhar para dentro de nós. E, só sabemos de que somos capazes para alcançar os nossos objetivos, quando a nossa integridade é posta à prova pela vida. Felizmente, a busca pelo autoconhecimento tem sido um objetivo comum entre os que entendem a necessidade de evoluir.

Reconhecer potenciais e limitações, vulnerabilidades morais e de caráter, nos ajuda a dar passos largos em direção ao amadurecimento, e acende um clarão para a compreensão e condução dos nossos relacionamentos, seja na esfera pessoal ou profissional. Despir-nos de todos os subterfúgios não é tarefa simples. A alma humana é uma incógnita, suscetível a auto-sabotagem. Não é fácil adentrar o seu âmago. Tudo o que pensamos conhecer sobre nós mesmos está ancorado na nossa crença acerda do que no fundo admiramos e queremos ser. Mostramos a nossa verdade mais conveniente. E, de quantas máscaras lançamos mão, às vezes, para esconder o nosso lado obscuro? O fato é que quanto mais nos “especializamos” no pernicioso exercício da dissimulação, nos subjugamos a uma auto-sugestão capaz de convencer a nós mesmos de uma auto-imagem ilegítima.


O autoconhecimento para a justificação dos nossos erros é uma busca em vão. Quanto mais avançamos nessa viagem para dentro de nós, maior a nossa responsabilidade sobre os nossos atos. Não há como ir contra o propósito maior da vida, que é a evolução. Precisamos nos conhecer para, então, alcançarmos um nível de entendimento mais profundo conosco, e com as pessoas que a vida colocou no nosso caminho para serem instrumentos do nosso aprendizado. Não nos acomodemos com o que somos hoje. À medida que nos melhoramos, tudo e todos mudam em nosso favor.


Foto divulgação


Links para esta postagem