Lembro ter lido, tempos atrás, uma mensagem que falava da vida, associando suas trajetórias a uma "viagem de trem". Hoje, relembrando-a, penso nunca ter visto comparação melhor. A vida seria, então, a própria locomotiva. Nós, os seus passageiros, distribuídos em vagões que se interligam. Em cada estação, pessoas que embarcam e desembarcam em busca de seus destinos.
Numa reflexão (própria do início de mais um ano), estive pensando que a vida é bem similar a isso. Todos nós, em algum momento, nos sentimos passageiros desse trem. Da janela, vemos a vida passar, contemplamos a paisagem, escolhemos ficar até o fim da linha, ou desembarcamos em alguma estação. Vemos descer amigos e amores, enquanto desconhecidos entram pela porta do nosso vagão. Ou, somos nós a deixar para trás a velha locomotiva, em busca de outro rumo.
Sou grata a Deus por ter estado em cada estação, no instante oportuno em que se abriu à minha frente, a porta de mais um vagão e o convite para uma nova experiência. Circunstâncias úteis ao amadurecimento e construção de mais um importante capítulo da minha história.
Não somos os mesmos a cada desembarque, porque deixamos um pouco de nós e levamos outro bocado dos que ficam. Quando a viagem chega ao fim, devemos entender que aquele ciclo de aprendizagem foi realizado. O tempo não importa, mas a intensidade com que nos relacionamos. Sendo inteiros, verdadeiros, deixamos a nossa melhor parte. E devemos, com a mesma dignidade, guardar o lado bom dos que seguem no trem, quando decidimos saltar na estação, movidos pela inquietude dos nossos corações.
Certezas não regem as nossas escolhas. Elas não existem. O que nos impulsiona é a necessidade de ser feliz. Só devemos nos arrepender da atitude não tomada, dos riscos que não corremos na iminência de uma provável felicidade. É essa busca que nos mantém vivos no sentido mais amplo da palavra. Estamos aqui, em algum trem ou estação, errando e aprendendo, por um objetivo maior: tornarmos-nos pessoas melhores.
Que da janela do vagão de todos nós, o sol brilhe radiante a cada dia.


Links para esta postagem

Buenos Aires tem sido um destino cada vez mais buscado pelos brasileiros. Além de ficar pertinho, o real é mais valorizado que a moeda argentina, o que é uma vantagem e tanto. Não que as coisas lá sejam tão mais em conta que no Brasil, como falam. Mas, digamos, é mais ou menos compatível à nossa realidade e você tem melhor noção de quanto está gastando. O que não se pode dizer quando suas contas estão sendo pagas em dólar ou euro, e sua ficha só vai cair quando chega a fatura do cartão crédito, duas vezes e meia mais o que você pensa que gastou. Dá pra sentir a diferença? Não deixe de ler no finalzinho “pesos x reais – como lidar com eles”. São dicas que vão lhe fazer economizar dinheiro.


A VIAGEM
Então, se você está planejando ir à Buenos Aires, ou ainda não sabe o que fazer nas próximas férias, que tal um incentivozinho? A partir do momento que se planeja uma viagem, a gente passa a sonhar com ela e a contar as horas até o tão esperado dia de arrumar as malas e ir para o aeroporto. Pois bem. Então, vamos começar pelo ponto de partida.
Estive em Buenos Aires com o maridão em novembro de 2008. Aliás, diga-se de passagem: uma ótima opção para viajar a dois. Entramos no avião cedinho da manhã, mas, já comecei a ver estrelinhas, pois nos serviram vinho para um brinde nos ares, ao som de Vinícius de Moraes. Não é romântico? Tudo bem, copos de plástico. Nem tudo é perfeito. E, para o almoço, um canelone muito bom, acompanhado de salada, cafezinho e tudo! Adorei. Terá sido a fome que ajudou? Ou o vinho?
Bem, o estado de espírito é um fator que deve ser levado também em conta. E que eu estava eufórica com a viagem, não nego! Então, se você não é uma pessoa entusiástica como eu, dá um descontinho, ok? Considerem: era a minha primeira viagem internacional (psiu!), ao lado do amor da minha vida. Eu estava ouvindo sininhos, dá licença?! E, além do mais, era o dia do meu aniversário e, logo à noite, eu estaria no famosérrimo Señor Tango, comemorando. Bateu uma invejinha?
Pois bem! De quebra, um céu azul de nuvens branquinhas. Aí, aquele copo de vinho a 10.000 mil pés. E ainda tivemos a sorte de pegar três poltronas só pra nós dois. Privacidade total! O que mais podia acontecer? Declarei-me pra ele! Com olhos rasos d’água e tudo! Bateu um bom presságio, sabe? A felicidade chegou ali e me impregnou. Simples assim! Longe da rotina, eu estava desprovida de qualquer preocupação, quer dizer: eu só tinha que ler um roteiro enorme de dicas de passeios e lugarzinhos, pesquisados em milhões de sites que eu fiz controlcê, controlvê e imprimi (igualzinho você vai fazer com este aqui). O que me diz?
O pessoal do fundão quase interditou o banheiro. Havia braços esticados no corredor, mãos segurando baralhos em forma de leque. Que clima! Viajar traz essas sensações boas. E esses momentos, perduram por muito tempo, até a próxima viagem! Dizem que a gente leva da vida, a vida que a gente leva. Portando, devemos escolher o que fazer com o nosso tempo. Respirar outros ares causa bem estar, sentimentos novos... dá uma “sede de vida”. Então? Consegui lhe convencer? Mas, nem chegamos ainda!

O HOTEL
Hotel em Buenos Aires tem peculiaridades que merecem atenção. Nós nos hospedamos em um três estrelas, o Horly, no centro da cidade. A localização é muito boa, pois fica perto da Florida (e pronuncia-se Florída mesmo e não Flórida), uma rua muito popular por suas variadas lojas de roupas, sapatos e artigos de couro. Seguindo pela Florida, chega-se ainda ao luxuoso shopping “Galerias Pacífico”, que tem uma bela arquitetura, lojas e praça de alimentação com uma sorveteria Fredo (que você não pode deixar de ir). Além do mais, você encontra nas proximidades vários Cafés, inclusive o Havana, onde se compra também o famoso alfajor.
Mas, voltando ao assunto, três estrelas em Buenos Aires não é como no Brasil. Se você é exigente com hospedagem, opte por um hotel que tenha classificação de pelo menos quatro estrelas. O Horly, por exemplo, é um prédio bem antigo. Tanto quanto um senhorzinho octogenário que está sempre pela recepção, a postos! - acho que é o dono. Quando o elevador demora a chegar para os hóspedes, ele fica bem impaciente. Pasmem com que aconteceu conosco: o “vovô” deu socos frenéticos na porta, intercalados por dedadas no interruptor, até o último segundo intrigante em que, finalmente, o elevador abriu-se à nossa frente. E como se a cena anterior nunca tivesse acontecido ele, elegantemente, fez uma breve reverência pra gente entrar. Não foi louco, isso?
A recepção até que é arrumadinha. Nada moderna, mas bem tradicional. Porém, ao chegar na nossa "habitación" (é assim que eles chamam a suíte) nos deparamos com um carpete dos anos setenta e um papel de parede desbotado. Sem falar no ar condicionado do tempo dos dinossauros. O banheiro tem bidê e aquela banheira oval larirará! Ah! E as torneiras cantam. Sério! Cantam um "dó maior afinadíssimo" enquanto você escova os dentes.
A programação da TV é péssima. Os jornalistas parecem apresentadores de programa de variedades, sabe? Não têm o tom sério dos nossos telejornais. E as novelas são ridículas. Imaginem que eu vi uma novela em que os personagens estavam discutindo e surgia no canto do vídeo aquelas artes, tipo um balão com o desenho de um relâmpago, uma explosão, etc.. Escapam as novelas brasileiras. Engraçado é ouvir a dublagem em espanhol. Bem, mas tevê é um mero objeto ilustrativo para quem tem mais o que fazer, certo?
Mas, onde está o meu espírito de “Alice no país da maravilhas”, heim? Os lençóis! Esses, no Horly, são limpos e branquinhos. E as toalhas, trocadas diariamente. Nada mal! O café-da-manhã tem vários tipos de pães e uns croissants bem comestíveis. Mas os sucos são artificiais, daqueles em pó, sabores bem sortidos. Dá pra encarar? E tem uma gelatina de morango que é servida numa tigela quebrada. Calma! Não é a tigela, mas a gelatina. Entendeu? Eles dão várias colheradas na superfície da gelatina antes de pôr à mesa. Talvez o chef tenha a síndrome de Amélie Poulain (alguém assistiu)? Não vem ao caso, mas... vai aí a dica de um ótimo filme. Um dos meus preferidos, hihi!

SEÑOR TANGO
Nós pegamos o vôo da TAM que sai às cinco e pouco da manhã e chega a Buenos Aires no início da tarde. Eu já havia agendado o Señor Tango para aquele mesmo dia, pois era o meu aniversário e eu queria comemorar em grande estilo. Então, aproveitamos a tarde para descansar, já que praticamente não havíamos dormido na noite anterior. Mas, não antes de expiar pela janela o movimento da rua e olhar todos os detalhes do quarto. Havia uma cama de casal, outra de solteiro, uma penteadeira, uma tevê de 14” e o ar condicionado “à la Juracik Park”. Ouvimos a torneira cantar, logo na estréia da nossa “habitación”. Apagamos. Às 21 horas nos apanharam no hotel. É costume as Casas de Tango mais tradicionais fazerem o traslado de ida e volta dos hóspedes. No item “transporte em Buenos Aires” me aprofundarei mais sobre esse assunto.
Começa aqui o nosso primeiro “momento encantado”. Já na entrada do Señor Tango fomos surpreendidos positivamente. A casa é belíssima. Sentamos numa mesa com mais três casais brasileiros, à beira do palco. Os garçons usam colete e gravata preta e são muito corteses. O que nos atendeu usava um bigode fininho, bem estilo “Clark Gable”. Eles oferecem duas opções de prato e sobremesa. Tudo muito bem servido e saboroso. Para beber, o vinho argentino. O espetáculo só começa após o jantar. E que espetáculo! São US$94,00 por pessoa. Mas, vale à pena cada centavo. O pacote inclui o show, o jantar, a sobremesa e a bebida (além do traslado).
Você, provavelmente, vai ouvir ou ler em algum lugar que existem outras casas de tango melhores. Não dê muito crédito. Se você ainda não foi ao Señor Tango, vá! Na verdade, o que dizem é que o Señor Tango faz um gênero muito “Broadway”. É verdade! E daí? A Broadway é uma referência de teatro do mais elevado nível no mundo. E se você quer ver algo mais peculiar da cultura argentina, não se preocupe. Você verá nas ruas, nos bares, por onde passar. Buenos Aires respira o tango.
Nós até fomos em outra casa de tango, a “Candilejas Tango Show”, com o objetivo de ver um espetáculo “mais tradicional”. Pagamos 340 pesos, equivalente a 265 reais. Quer saber? Eu não recomendo. Não é que não seja interessante, tão pouco que eu queira comparar com o incomparável Señor Tango. Mas, não valeu o que pagamos. Certamente, eu teria ficado mais satisfeita, se tivesse sentado em uma mesa de um dos barzinhos pitorescos do “Caminito”, uma travessa com apenas 100 metros no colorido bairro de La Boca, onde se assiste a um show de tango ao ar livre, sob o sol do entardecer. Aliás, esse é um lugar para visitar durante o dia. Às 18 horas, no mais tardar, pegue a sua carruagem e suma. Dizem que à noite em La Boca pode ser perigoso. Quem vai querer tirar a prova?
CAMINITO
Conheci o Caminito no tour que fizemos. Mas, foram apenas vinte minutos para percorrer as lojinhas e ruas de La Boca. O lugar me seduziu. Sua localização é próxima do porto e foi habitada por muitos estrangeiros. As casas da Caminito são construídas com tábuas de madeira, placas e telhas de metal multicolores. Nas ruas, artistas plásticos expõem telas que retratam o bairro. E tem muitas lojinhas com artesanatos e suvenires. Mas, não compre nadinha! Resista à tentação. Nesse lugar tudo é feito para turistas, portanto, os preços são muito salgados.
Confesso que eu quase perdi o ônibus quando me deparei com barzinhos de fachadas coloridas, mesinhas com guarda-sol espalhadas na calçada, ao som estridente de um tango ao “vivinho”! E para eu acabar de derreter, um casal a bailar bem ali na frente, lindamente. Fiquei alguns minutos babando e o meu marido teve que me puxar pelo braço. Fomos literalmente correndo para o ônibus. Pronto, tudo isso foi para dizer que eu trocaria a noite de “Candilejas Tango Show” por uma tarde naquele lugar.
Esse tour que normalmente vem incluso no pacote é legal para se ver onde vale à pena voltar. Só que, nem sempre se volta porque a gente acaba querendo conhecer outros lugares, não é? Pois bem! Eu gostaria realmente de ter reservado uma tarde para La Boca. Percorreria suas ruas e lojinhas e terminaria justamente naquele bar, assistindo àquele tango e brindando com um vinho argentino. Combinado?
Até aqui eu indiquei uma noite no Señor Tango e uma tarde em La Boca. Decore e vamos pra frente! Se no seu pacote tiver o item “Passeio de meio dia à cidade de Buenos Aires”, você vai fazer o tour que eu fiz. Vão te levar à Casa Rosada, Catedral que é ao lado, e alguns pontos e bairros importantes. Mas é tudo corrido, muito rápido mesmo. O suficiente pra tirar umas fotos e tchau! Esse tour termina em La Boca. Vai a sugestão: se você fizer esse tour pela manhã, fique em La Boca.
Veja tudo com calma, escolha almoçar em um bar/restaurante da travessa Caminito. Mas, por favor, um que tenha show de tango! Sente numa mesa na calçada, ouça o som da música que penetra em seu coração e aprecie a sensualidade dessa dança envolvente que o é tango. Mas, não antes de despachar o ônibus. Depois, você pega um taxi. Vale à pena! Eu não pude fazer isso porque fiz o tour à tarde, e quando cheguei a La Boca já era fim de tarde, quando o bairro não é muito seguro.

O TANGO
Se você não tem tanto interesse por tango, ponha uma coisa na cabeça: quando você vai a Buenos Aires, você se apaixona pelo tango. Essa dança tem uma magia muito envolvente que embriaga os sentidos. Cada passo transpira sensualidade. A música toca a alma e o coração. As mulheres dançarinas parecem divas. Até as que não são tão bonitas assumem certo poder de sedução. E os homens quando as tomam pela cintura, parecem hipnotizados por suas curvas e movimentos. Pra que você tenha uma melhor idéia, um casal dançando tango passa a impressão de que ambos estão arrebatados por uma louca paixão. Isso, porque o tango é uma dança meio teatral, cheia de encenação e olhares fulminantes.
E é comum encontrar casais vestidos a caráter dançando no meio da rua, em troca de alguns trocados. É provável que você ouça também no rádio dos taxis, nos lugares por onde passar, o som de um bom tango. Não se preocupe, quando você voltar ao seu país de origem, passará uma semana furando o CD de tango que você, fatalmente, trará de Buenos Aires. Se não adquirir pelo menos unzinho, vai se arrepender.

A LÍNGUA
Não se preocupem com a língua. Dá pra entender. Alguns falam rápido demais e você pode ter alguma dificuldade. Mas é só pedir para falarem devagar. Se for um assunto sem importância, finja que entendeu. Eles também fazem isso, não duvide. O que complica um pouco são os cardápios. Você pode pensar que pediu uma coisa e vem “a coisa”. Vou lhe dar uma colher de chá:

Lomo = Filé Mignon
Bife de Chorizo = Contrafilé
Papas Fritas = Batatas Fritas
Salsa Criolla = Vinagrete
Tapa de Cuadril = Picanha
Vacío = Fraldinha

Coloque uma “pescazinha” no bolso, viu? E nem pense em pedir carne usando os nomes dos cortes brasileiros da vaca, pois o garçom vai ficar a ver navios (ou será você?). Eles não fazem a menor idéia do seja uma picanha. Esta aí eles chamam de “tapa de quadril” e a deliciosa gordura que eles chamam de “graxa”, não acompanha a carne nem em pensamento. Pode crer!

TRANSPORTE EM BUENOS AIRES
Uma coisa que não vai pesar no orçamento da viagem é o transporte. Taxi em Buenos Aires é barato. Se você estiver no centro, qualquer corrida vai dar entre oito e vinte pesos. Eu não consegui pagar mais que isso por lá. Dá pra pegar metrô também. Não são bem cuidados como os de SP. Mas não dá pra matar, principalmente, se você estiver muito a fim de economizar. Em Buenos Aires, com um mapa no bolso você vai pra qualquer lugar. É "facim". E não abra mão de caminhar pela Florida, pelas ruas principais da cidade. Bater perna é a melhor forma de apreciar a cidade, perceber detalhes da cultura e descobrir lugarzinhos.

PASSEIO PELO RIO TIGRE
Inclua no seu pacote o “passeio pelo Rio Tigre”. Custa em torno de 24 dólares por pessoa, muito bem pagos. Eu não esperava muito, pra falar a verdade. Imaginei um passeio de barco por um rio. Nada demais! Só que há uma série de atrações antes e durante o passeio. Primeiro, pegamos um ônibus para uma cidade chamada San Isidro, charmosa por seu clima europeu, a 21 km de Buenos Aires.
Paramos na estação de trem de San Isidro onde tivemos excelentes oportunidades de compra de lembrancinhas. Lá encontramos lojinhas com muitas variedades e preços justos. Comprei um belo casal em resina, dançando tango, por 38 pesos. Um parecido em La Boca custava em torno de 70 pesos. Depois de visitar as lojinhas, apanhamos um trem e fizemos um belo passeio de mais uns 10 km apreciando as paisagens, até o terminal de Tigre.
Tigre foi berço de fatos importantes da história argentina. Nas primeiras décadas do século 20 era o destino de verão preferido de famílias aristocráticas de Buenos Aires. De barco, apreciamos um pouco dessa história refletida em museus e mansões antigas às margens do Rio. Sem falar nas casinhas bucólicas construídas sobre palafitas e as “touceiras” de hortênsias azuis a beira do Tigre. Paisagens que instigam um olhar curioso e uma dose de romantismo. Vimos um “barco-hospital”, um barco “supermercado” e um posto de combustível. Tudo que a comunidade precisa (ou quase tudo) está ali, no leito do Rio. Durante o passeio nos serviram um café com alfajor. Eu estava morrendo de fome! Foi o melhor alfajor da minha vida! Doce, como toda a programação daquela manhã.
Tudo foi gravado em um DVD por uma cinegrafista. Pagamos 100 pesos por lembranças eternas, sem preço. E ganhamos de brinde um CD com os mais tradicionais tangos. Foi esse que quase furei de tanto ouvir na primeira semana de retorno ao Brasil (não diga: “dessa água não beberei”).

CONFEITARIA IDEAL
Voltando do passeio pelo rio Tigre pedimos para descer no Obelisco, um monumento histórico, localizado na Praça da República, no cruzamento das avenidas Corrientes e 9 de Julho. Esta última é considerada a mais larga avenida do mundo, com 134m de largura. Pois bem! Descemos ali porque era o ponto mais próximo de uma tal “Confeitaria Ideal”. Esta, era uma das indicações que encontrei na internet. Parecia uma boa opção para comer uma guloseima, tomar um café, pois era tarde demais para o almoço e cedo para o jantar.
Depois de caminhar algumas quadras, encontramos a dita Confeitaria, que eu já estava chamando de “padaria” quando ía pedir informação. Na entrada havia uma placa com fotos de pratos executivos apetitosos a preços bem interessantes, tipo 15, 20 pesos. Achei estranho aquele tipo de cardápio, mas, ficamos felizes porque estávamos muito famintos.
Na entrada, uma mocinha não muito simpática nos cobrou 15 pesos por pessoa para entrar. Para entrar? (você deve estar perguntando). Pois é! Entramos e tivemos a surpresa. Um belo salão com mesas em volta, muitos espelhos e lustres dourados. Ao centro, casais dançavam tango. Senhoras e senhores decrépitos, e mulheres bem jovens também, com um vovô apertando-lhe a cintura. A coisa mais linda! Dançavam de olhos fechados, concentrados, e pareciam sentir profundamente cada movimento, cada nota musical. Pedimos uma Quilmes!
Depois fomos nos situando. A mocinha da entrada não explicou nadinha! Ali havia professores de tango. Os 15 pesos da entrada nos dava direito a aprender os passos básicos do tango com um(a) “profissa”. Fiquei doidinha! Queria me atracar com um “vovozudo” daqueles e sair tangorolando pelo salão. Mas quando estava convencendo o meu marido a dançar só umazinha, soubemos que faltavam 15 minutos para encerrar. As aulas vão até às 15h. A comida é boa e o preço é justo. O lugar é muito tradicional e você vai conhecer de fato a cultura portenha de um jeito bem diferente e divertido. O garçon que nos atendeu era por si só uma atração. Parecia o Frankenstein e andava bem devagar, com o corpo enrijecido balançando de um lado para outro. Enfim, fomos surpreendidos. O lugar não era o que esperávamos, mas bem melhor, eu diria.
Portanto, a dica: vá almoçar na Confeitaria Ideal, mas chegue cedo pra não perder a oportunidade de arranhar um tango. Escolha um velhinho simpático! Saiba que eles estão ali para ensinar (caso a mocinha pouco simpática da portaria não lhe informe isto).

CAFÉ TORTONI
O Café Tornoni é o mais famoso café de Buenos Aires. Você não pode deixar de conhecer. Além da bela arquitetura e o apetitoso cardápio, é um verdadeiro museu de artes, com suas esculturas e quadros que dão todo um charme especial. Tem ainda, um salão super chique onde acontecem apresentações de tango que você assiste da mesa, enquanto saboreia o tradicional chocolate com churros. Os garçons se oferecem para fotografar e lhe deixam à vontade para conhecer a casa. No museu do café, que fica nos fundos, tem muita coisa legal pra espiar. E aproveite para tirar uma foto na área de fumantes, numa mesa em frente à um painel gigante com a imagem da 9 de Julho. Fica muito show!

MUSEUS
Buenos Aires tem muitos museus. Porém, o tempo é curto demais da conta pra ficar confinado em museus, horas e horas, quando há coisas e lugares indispensáveis pra ver. Tem gente que vai só porque é chique, é cult! É ou não é? Se você vai passar poucos dias, escolha “pelo menos no máximo”, um! Unzão pra não pra não passar vergonha. E guarde suas horas de imersão cultural para o Louvre (cê-tré-melhosê).
Eu escolhi o Malba porque tem obras de Frida e Tarsila do Amaral. Tem um guia que te leva pra ver obra por obra-prima, de primeiro e segundo grau, conjeturando tudo o que o artista pode ter pensado ou sentido ou querido dizer com aquele devaneio de quadro. Você é paciente?? Se não, saia à francesa, passe para a próxima, e tire você mesma as suas conclusões (se conseguir). Meu povo, eu tô parencendo insensível? Pelamorde!!! No fundo eu sou chique e cult. Hã??

PUERTO MADERO
Imaginem um antigo porto, recuperado e revitalizado, margeado por uma rua de paralelepípedos, banquinhos, postes de iluminação e vários restaurantes charmosos no entorno. Isto é Puerto Madero. Buenos Aires escurece depois das 19h. Chegue às 18h30min. Assim, você aprecia os últimos instantes do entardecer. Antes de pensar no jantar, passeie por Puerto Madero, sente-se num banquinho, tire umas fotos. Só então você deve escolher um dos muitos restaurantes que lhe convidam pelo estilo e cardápio, sempre exposto do lado de fora. Tem um tal de “Las Lilas” que é o mais famoso. Mas os preços são muito, muito caros. Há outros tão bons quanto. Com ótima comida e vinho no preço. Nós ficamos no Bahia Madero, fomos muito bem atendidos e pagamos 138 pesos por um excelente jantar, mais uma garrafa de vinho (pouco mais que 100 reais).

RECOLETA
Esse é um dos bairros mais elegantes de Buenos Aires. Lá estão os mais atraentes cafés e lojas de grifes famosas, como Armani, por exemplo. Vale a pena andar pelas ruas, afinal, você não precisa comprar. Eu fui à Recoleta na mesma tarde que visitamos o Museu Malba. Alguém nos informou que dava pra ir caminhando e aproveitamos para sentir a atmosfera da cidade. Foi ótimo! Andamos a pé por longos quarteirões de calçadas largas, cobertas por flores amarelas das Acácias, que se revezam com os pés de Jacarandá. No caminho, fomos surpreendidos por uma escultura gigante, o “Floralis Genérica”, ícone de cartão postal de Buenos Aires. Com 20 metros de altura, a flor de metal abre suas pétalas de dia e fecha à noite. É muito bonita e fica dentro de um parque.
Mais algumas quadras e chegamos à Recoleta. Nas tardes de sábado há uma feirinha de artesanato numa praça bem central. Portanto, escolha esse dia da semana para visitar o bairro. E, bem próximo à feirinha, está o tão comentado e sempre incluso nos roteiros turísticos de Buenos Aires, cemitério, onde estão os túmulos da aristocracia dos últimos séculos, especialmente, o de Eva Duarte Perón, a eterna "Evita Perón". Quero registrar que esse programa é a maior furada. Sem comentários! Aliás, eu vou comentar sim. É um cemitério feio, comum, e o túmulo da Evita fica num corredor estreito, não tem nada demais. Repito: nadinha! Não vi a menor graça nessa funesta visita. Agora, se você está de bobeira lá pela Recoleta e quer porque quer ver o túmulo da Evita, então vá! E faça bom proveito, viu?
Eu acho mais negócio sentar em um daqueles cafés e disputar um lugar com os pombos. Há muitos por todos os cantos, bicando as migalhas dos croissants que ficam pelo chão. Não chega a ser incômodo. É uma novidade bucólica para nós que não estamos acostumados. E você pode optar em ficar na parte interna se não quiser dividir o seu espaço com eles. Nós escolhemos o “La Biela”, bem de esquina, e pegamos uma mesa na calçada.
Uma curiosidade: você paga uma tarifa para ser servido lá fora, no “Salón Vereda”. Mas, na maioria dos restaurantes, embora não seja cobrada a taxa de serviço, os 10% cobrados aqui no Brasil, você paga outra taxa fixa que eles chamam de “La Cubierta”. Entenda: “área coberta”. Significa que você está pagando pela própria estrutura do restaurante, tipo ar condicionado, conforto, etc., e custa entre três e seis pesos por pessoa. Não é esquisito?

SAN TELMO
San Telmo é tudo! Se tivesse que escolher um lugar, seria este. Mas, esse bairro tem dia certo para visitar. O domingo e nada mais. Nesse dia, San Telmo é um lugar encantado. Centenas de turistas de todas as nacionalidades invadem suas ruas. É possível ouvir vários idiomas, ver peles brancas, amarelas e negras. Todas as culturas se misturam num emaranhado de sons e sensações. São músicos que tocam acordeão nas calçadas, casais que dançam um tango ao vento, em meio aos artistas que expõem as suas artes. É beleza refletida nos milhares de peças de antiguidade que se exibem nas galerias de arte, nos diversos antiquários e na praça, cercada por bares, restaurantes e cafés.
San Telmo é mágico. Caminhar por suas ruas ou simplesmente sentar em uma mesa ao ar livre de um dos Cafés é um espetáculo, uma experiência única. Você até esquece que enquanto você está ali, pessoas trabalham, se estressam e se matam. A grande atração é a feira de antiguidades. Tudo que se vê é um bom pretexto para tanta gente reunida, pois tudo é belo, tudo é arte, e embora a maioria dos preços sejam bem salgados, não se paga para apreciar!
No mercado de San Telmo, pertinho, aí sim! Dá pra comprar antiguidades por uma pechincha. Comprei um prato italiano todo decorado, desses de pôr na parede, por 15 pesos. E taças de puro cristal, antigas, pela mixaria de três pesos (só eu mesma pra enfiar cristal dentro da mala). A feira acontece durante toda a manhã e a tarde. Então, guarde o domingo para San Telmo. É inesquecível.

PESOS X REAIS – COMO LIDAR COM ELES
Eu e meu marido levamos uma quantia em reais para trocar em pesos numa casa de câmbio na Argentina. O câmbio estava 1,28. Ou seja, para cada 1,00 real, recebemos 1,28 pesos. Mas, atenção para este detalhe importante: precisamos de mais dinheiro (pois vale mais a pena comprar em pesos do que no cartão), e olha só a nossa surpresa! Sacamos 1000 pesos no caixa eletrônico e sabe quanto isso representou em nossa conta corrente? Apenas R$ 514,60. Não é incrível? Façam o cálculo comigo: se eu fosse trocar reais por pesos, precisaria de 781,25 reais para receber 1000 pesos. No entanto, quando sacamos no caixa eletrônico de Buenos Aires, só foram necessários R$ R$ 514,60. Quero dizer: o câmbio usado para a conversão foi 1,94. Bem melhor que 1,28, não?
Percebe que teria sido um “negoçião” sacar todo o dinheiro em Buenos, que levar reais para serem trocados em pesos por lá? Outra coisita: somos correntistas do Banco Real, que não tem Agência em Buenos Aires. Mas foi possível sacar em um banco local, o “Banelco”. Quem tiver conta no Itaú nem precisa se preocupar, pois lá tem, viu? Um conselho: se inteire melhor sobre isso para não haver nenhum equívoco. Certamente, o gerente da sua conta é a pessoa mais indicada para tirar as suas dúvidas. Caso ele não esteja seguro, não hesite em pedir para ele se informar. E não espere que a Agência de Viagem esteja por dentro dessas maravilhas. A nossa nos orientou exatamente a levar todo o dinheiro que pensávamos usar lá.
Só mais uma dica: leve uma mini-calculadora na bolsa! Assim, você não vai ter dúvidas se está pagando um preço alto ou justo pelo que está comprando. Basta fazer a conversão para reais. Não é prático? E não tenha vergonha de pechinchar. Quando você pede, eles costumam baixar o preço. Mas, saiba como fazer: "desconto" para os portenhos significa “atención”.

Vamos, então, fazer a sua agenda de Buenos Aires?
Uma noite no Señhor Tango.
Um tour na cidade, pela manhã. Confira se a última parada é em La Boca. Dispense o ônibus. Lá você vai ficar para apreciar as peculiaridades do colorido bairro. Não aconcelho as compras por lá. E, termine em um barzinho da travessa Caminito. Almoce assistindo a um show de tango.
Escolha jantar uma noite em Puerto Madero. Chegue meia hora antes do pôr-do-sol. Lá o sol se põe depois das 18h. Caminhe pela rua que margeia o Porto Madero, sem pressa. Sente-se em um banquinho pra jogar conversa fora. Só depois entre em um restaurante, mas, não antes de olhar os cardápios que ficam expostos do lado de fora.
Almoce um dia na Confeitaria Ideal. As aulas de tango encerram às 15h. Chegue bem antes. E mesmo que você não tenha interesse em dançar, olhar já é divertido o bastante.
Não deixe de fazer o “passeio de barco pelo Rio Tigre”. Você também vai andar de trem e terá a oportunidade de comprar “lembrancinhas” na estação de San Isidro, onde os preços são justos.
Uma tarde de sábado na Recoleta. Aproveite para ir à feirinha de artesanato, e depois poderá “bater perna” na rua chique das lojas de grife. Encerre o dia em dos vários cafés. Mas, antes de tudo, bem no comecinho da tarde, vá ao Malba. O museu onde estão as obras de Frida e Tarsila do Amaral. De lá dá pra fazer uma boa caminhada para a Recoleta, e no caminho você visitará o parque onde está o monumento “Floralis Genérica”.
O Café Tortone é lugar obrigatório. Você pode ir à noite ou fim de tarde. Caso queira ver o show de tango que é opcional, informe-se dos horários de apresentação. E, falando de café, visite outro dia o café Havana. Além do tradicional café, experimente o melhor alfajor da cidade, ótimo para presentear os parentes. E não deixe de saborear o delicioso sorvete da Fredo. Suas sorveterias estão espalhadas pela cidade. Você encontra inclusive, facilmente, na Recoleta, no Puerto Madero e no shopping “Galerias Pacífico”.
E, por último, entre os dias que passará em Buenos Aires, reserve um domingo para San Telmo. A feira de antiguidades acontece o dia todo, até às 17 horas. Deixe para comprar no mercado, onde os preços são convidativos. Sente-se em um café, em frente à praça da feirinha, e escolha uma mesa na calçada. San Telmo é arte e magia. Um lugar que, certamente, você vai sentir muitas saudades.

Bem, espero ter contribuído de alguma maneira. Desejo a você, “buenos dias em Buenos Aires”. E até a próxima viagem!



Links para esta postagem